O supertufão Sinlaku se aproxima de Guam perdendo força, dizem os meteorologistas, como se isso fosse consolo para quem mora numa ilha de 540 quilômetros quadrados cercada de oceano e de descaso federal. As Ilhas Marianas do Norte já sentem os ventos, e Guam se prepara para o impacto com a resignação de quem conhece o roteiro de cor: o governo federal promete ajuda, a FEMA monta a encenação logística, os militares protegem seus ativos estratégicos e os civis torcem para que o telhado aguente. A diferença entre um território e um estado, nessas horas, não é semântica. É a diferença entre reconstrução em seis meses e abandono por seis anos.

Guam abriga a Base Aérea de Andersen e a Base Naval, peças centrais da estratégia americana de contenção da China no Indo-Pacífico. O Pentágono despejou bilhões na ilha nas últimas duas décadas, erguendo hangares reforçados para bombardeiros B-52, silos de munição, sistemas antimísseis e infraestrutura capaz de resistir a ataques balísticos. A ironia é tão grossa que dispensa comentário: as instalações militares são projetadas para sobreviver a um míssil hipersônico chinês, mas as escolas, hospitais e casas dos 170 mil moradores de Guam não foram projetadas para sobreviver a um tufão. O contribuinte americano financia a fortaleza, o morador de Guam financia a própria sorte. Washington enxerga a ilha como coordenada geográfica, não como comunidade. Um ponto no mapa onde se projeta poder, não onde se protege gente.

O padrão é antigo e documentado pela própria história americana. Porto Rico, após o furacão Maria em 2017, esperou meses por recursos que qualquer estado continental teria recebido em semanas. As Ilhas Virgens Americanas, após Irma, descobriram que ser território significa receber a conta da cidadania sem o benefício da representação. Guam não tem voto no Congresso, não escolhe presidente com peso eleitoral real, não tem senadores brigando por verba de reconstrução em comitê. Seus moradores são cidadãos americanos de jure e residentes de segunda classe de facto. Pagam impostos federais em certas categorias, servem nas Forças Armadas em proporção superior à média nacional, morrem em guerras decididas por políticos que nem sabem apontar a ilha no mapa, e quando o tufão chega, esperam na fila atrás de estados que elegem senadores.

Existe algo de obsceno em um governo que gasta 886 bilhões de dólares por ano em defesa e não consegue garantir infraestrutura resiliente para as populações que vivem literalmente na linha de frente de sua projeção militar. Guam não escolheu ser pivô geopolítico do Pacífico. Os chamorro, povo nativo da ilha, não assinaram contrato pedindo para sediar o maior depósito de munições do Pacífico ocidental. Essa decisão foi tomada em salas climatizadas de Washington, por gente que nunca sentiu vento de 200 quilômetros por hora, e o custo operacional da base inclui tudo, menos a dignidade de quem vive ao lado dela. O orçamento militar americano é o maior programa de transferência de riqueza já concebido: sai do bolso do trabalhador, passa pelo Congresso, chega aos acionistas de empreiteiras de defesa e, se sobrar troco, talvez compre um gerador para o hospital de Tamuning.

O Sinlaku vai passar. Vai causar danos, vai inundar estradas, vai derrubar postes, vai deixar famílias no escuro por dias ou semanas. E quando as câmeras saírem, quando o ciclo noticioso migrar para o próximo escândalo em Washington ou a próxima provocação no Estreito de Taiwan, Guam vai voltar a ser o que sempre foi para o establishment americano: uma pista de pouso com gente inconveniente morando em volta. A reconstrução civil vai demorar, os contratos vão para empreiteiras do continente, a mão de obra local vai ser subcontratada por uma fração do valor, e daqui a dois anos alguém no Pentágono vai apresentar um PowerPoint brilhante sobre a resiliência da infraestrutura militar em Guam, sem mencionar que a escola primária da vila ao lado ainda tem lona no lugar de telhado. Impérios sempre funcionaram assim: a periferia existe para servir o centro, e quando a periferia sofre, o centro manda um comunicado de solidariedade e volta a almoçar.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.