A cena é deliciosamente reveladora. A FIFA, essa estrutura supranacional que opera com imunidade tributária na Suíça, que dita regras a Estados soberanos, que reescreve códigos urbanos em cidades-sede e exige zonas de exclusão comercial em volta dos estádios, capitulou diante de um costume popular norte-americano. Em Boston, no entorno do Gillette Stadium, os torcedores poderão estacionar suas picapes, abrir o porta-malas, acender a churrasqueira portátil e beber cerveja antes do jogo, exatamente como fazem há décadas nos jogos da NFL. A federação que tentou empurrar goela abaixo o protocolo asséptico dos estádios europeus engoliu o orgulho. O americano médio, esse contribuinte que vai pagar a conta da segurança pública dos sete jogos em Foxborough, deixou claro que abre mão de muita coisa, menos do seu ritual de quintal.
Convém entender o que está em jogo aqui, porque o tailgating não é folclore inocente. Cada lata de cerveja vendida no estacionamento é uma lata que não foi vendida pelas concessionárias oficiais dentro do estádio, aquelas que pagam royalties polpudos para serem fornecedoras exclusivas do torneio. Cada hambúrguer grelhado no asfalto é um hambúrguer que não engordou a margem dos parceiros gastronômicos credenciados. A FIFA tentou, como sempre tenta, transformar o entorno do estádio em shopping center cativo, com seus contratos de exclusividade que valem centenas de milhões de dólares. Bateu na parede da cultura local e percebeu que, se insistisse, teria estádio com assento vazio e pesadelo de relações públicas.
Há uma ironia histórica que merece ser dita sem rodeios. Os organismos internacionais adoram desembarcar em territórios alheios pregando padronização, modernização, boas práticas, e quase sempre o que carregam na mala é um modelo de captura de renda desenhado para drenar valor da economia local em direção aos cofres da matriz. O comitê organizador anuncia investimentos bilionários, o prefeito sorri para a foto, o governador promete legado, e quando a poeira assenta o que sobra é dívida pública, estádio superdimensionado e contratos de patrocínio cujos lucros voaram para outro fuso horário. Boston ainda não viu o boleto, mas verá. Sete jogos rendem semanas de manchete e décadas de manutenção paga pelo pagador de impostos de Massachusetts.
O recuo sobre o tailgating, portanto, não deve ser celebrado como vitória da liberdade. Foi concessão tática, gesto calculado para abafar a hostilidade crescente da imprensa local e evitar que os ingressos a preços estratosféricos encalhassem nas plataformas de revenda. A FIFA continua sendo a mesma máquina de privatizar lucros e socializar custos, com seus comitês fechados, suas decisões opacas, seus acordos de hospitalidade que misturam dirigentes esportivos com chefes de Estado num balé de cortesias que jamais aparecerá em nenhum balanço auditável. O torcedor que estiver fritando linguiça no estacionamento de Foxborough estará, sem saber, pagando duas vezes pelo espetáculo, uma com o ingresso, outra com o imposto que bancou a obra, a polícia extra, o desvio de tráfego, o subsídio invisível.
Resta a lição que poucos terão paciência de extrair. Quando uma instituição internacional cede num ponto pequeno, é porque calculou que o custo de não ceder seria maior. A liberdade que o americano arrancou da FIFA, o direito banal de beber sua cerveja antes do jogo, é a mesma liberdade que cidadãos de outras sedes não tiveram, porque não tinham tradição organizada para defender, nem imprensa local barulhenta o bastante, nem cultura cívica enraizada o suficiente para dizer não. Onde o costume é forte, o burocrata recua. Onde o costume é fraco, o burocrata avança. E avança sempre, em silêncio, contrato por contrato, regulamento por regulamento, até que o estádio inteiro pertença a quem nunca pisou na cidade.
O tailgating sobreviveu em Boston não porque a FIFA é generosa, mas porque a FIFA é calculista. O resto do mundo, que recebeu a Copa antes e receberá depois, fica com a lição amarga de que liberdade não negociada é liberdade perdida. Cerveja gelada no porta-malas, no fim das contas, é um ato político.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.