Há uma cena que deveria congelar qualquer pessoa com dois neurônios funcionando: um brasileiro na fila do supermercado, com um pacote de arroz de cinco quilos na mão, passando o cartão de crédito e escolhendo parcelar. Não parcelar uma geladeira, não parcelar uma passagem aérea, não parcelar um bem durável qualquer. Parcelar comida. O alimento que entra e sai do corpo em menos de vinte e quatro horas sendo financiado por uma instituição que cobra, em média, quatrocentos por cento de juros ao ano. Existe alguma imagem mais eloquente do que chegamos? O senador Flávio Bolsonaro jogou esse dado na praça pública num domingo de manhã, e a resposta do país foi o silêncio habitual de quem já se acostumou demais com o absurdo para reconhecê-lo como tal.
Metade da população adulta com o nome sujo. Não é exagero retórico, não é demagogia de campanha. São mais de oitenta milhões de pessoas impedidas de abrir conta, de alugar imóvel, de fazer um financiamento, de participar da vida econômica formal com qualquer dignidade. Oitenta milhões. Para ter uma noção de escala: a França inteira tem sessenta e oito milhões de habitantes. Jogamos fora, no lixo da inadimplência, uma população maior que a da França, e continuamos discutindo política de cotas, pronomes e os projetos de lei número três mil e quarenta e dois de autoria do deputado Fulano da Silva. A capacidade brasileira de debater tudo menos o que importa é, a seu modo, uma obra-prima da distração institucionalizada.
Mas de onde vem isso, exatamente? Vem de décadas de um Estado que gastou o que não tinha, imprimiu o que não podia, taxou o que sobrou e depois teve a desfaçatez de criar programas sociais para aliviar a miséria que ele mesmo fabricou. O mecanismo é tão antigo quanto o parasitismo organizado: o governo arrecada compulsoriamente a riqueza produzida pelo cidadão, devolve uma fração miserável sob forma de benefício e exige gratidão eleitoral pelo favor. O imposto inflacionário, que corrói silenciosamente o poder de compra de quem tem salário fixo, é o mais desonesto de todos os tributos porque não aparece na nota fiscal. Ele chega na forma de preço do arroz. O mesmo arroz que agora vai para o cartão de crédito.
E o cartão de crédito, é bom dizer, não é um vilão autônomo nessa história. Ele é o sintoma final de um sistema de crédito que o próprio Estado distorce sistematicamente. As taxas de juros brasileiras são escândalo de civilização; nenhum país sério do mundo permite que instituições financeiras cobrem o que se cobra aqui sem que isso seja chamado pelo nome correto, que é usura legalizada. O Banco Central regula, o Tesouro emite dívida a taxas altíssimas, os bancos públicos existem como instrumento de distribuição de favores políticos, e no final da cadeia está o trabalhador que parcela o feijão a quarenta por cento ao mês porque não tem outra saída. Siga o dinheiro e sempre, invariavelmente, você chegará ao Estado como primeiro motor do problema que ele mesmo se oferece para resolver.
O que Flávio Bolsonaro disse é politicamente óbvio e eleitoralmente calculado, claro. Não existe senador que acorda num domingo sem um cálculo de campanha na cabeça. Mas o fato de algo ser dito com interesse político não o torna falso. Os romanos também sabiam que o Senado era uma arena de interesses, e ainda assim alguns senadores diziam a verdade de vez em quando. A questão não é quem disse. A questão é o que foi dito, e o que foi dito é grave o suficiente para que qualquer país com memória histórica funcional parasse tudo para discutir. Uma nação onde metade dos adultos não paga suas dívidas e onde alimentos básicos viram objeto de financiamento de longo prazo não está "em dificuldades". Está doente. Está em colapso lento, administrado, documentado e ignorado por quem deveria, por dever de ofício, gritar.
Civilizações não morrem de uma vez. Morrem em parcelas. Às vezes doze, às vezes sessenta. E no extrato do mês aparece só o juro, nunca o capital. O capital já foi embora faz tempo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.