A noite eleitoral colombiana foi vendida ao mundo como exercício democrático tenso, disputa apertada entre Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda, civismo andino em estado puro. A realidade é menos fotogênica. A Colômbia há décadas funciona como entreposto geopolítico onde Washington, os cartéis e as multinacionais de mineração se revezam no comando, e cada urna apenas confirma qual gerente de plantão administrará o balcão pelos próximos quatro anos. O segundo turno marcado para 21 de junho não decide rumo nacional, decide apenas o tom da subserviência.

Convém olhar a planilha antes do discurso. A Colômbia recebeu, desde o Plano Colômbia inaugurado no fim dos anos noventa, mais de doze bilhões de dólares em assistência militar e policial americana, dinheiro que jamais entrou no bolso do cafeicultor de Huila ou do pescador de Buenaventura. Entrou na conta de fabricantes de helicópteros Black Hawk, empreiteiras de bases, contratistas privados que cobram por hora de mercenário como advogado de Manhattan cobra por hora de litígio. A guerra às drogas, anunciada como cruzada moral, virou o mais lucrativo programa de transferência de renda do hemisfério ocidental, do contribuinte camponês colombiano para o acionista de Bethesda e Arlington. Cada hectare de coca fumigado com glifosato pago por Washington é um contrato de reposição garantido na bolsa de Nova York.

Cepeda vende uma esquerda que promete renegociar com guerrilhas e reabrir diálogo com Caracas, o que basicamente significa trocar o patrocinador anglo pelo patrocinador petroleiro. De la Espriella, advogado de notórios narcotraficantes reciclado em paladino da ordem, oferece o cardápio inverso, mão pesada interna, alinhamento total com o Pentágono, abertura escancarada para mineradoras canadenses e americanas avançarem sobre territórios indígenas que ainda resistem. Ambos prometem soberania. Nenhum dos dois define a quem essa soberania será arrendada. Os colombianos escolhem entre dois cartéis, o ilegal que paga em dólar sujo e o legal que paga em dólar lavado por Wall Street.

A história latino-americana é uma coleção de cadáveres dessa escolha falsa. Guatemala teve sua reforma agrária esmagada porque a United Fruit não admitia perder bananal. Chile foi estrangulado economicamente porque o cobre não podia escapar das mãos certas. Bolívia foi desmembrada pelo estanho, Venezuela pelo petróleo, Honduras por qualquer coisa que pudesse ser exportada. A Colômbia carrega a maldição adicional de ter coca, ouro, níquel, esmeraldas e saída para dois oceanos, uma combinação que nenhum império permitiu jamais que ficasse em mãos locais. Cada eleição é encenada com seriedade litúrgica para que o resultado, qualquer que seja, possa ser apresentado como vontade do povo, e não como liquidação de ativos.

Enquanto isso, o colombiano comum, aquele que não aparece em capa de Al Jazeera nem em relatório do Departamento de Estado, continua pagando a conta em três moedas simultâneas. Paga em imposto para sustentar o exército que protege os interesses de quem o explora. Paga em filho enviado para morrer em selva contra inimigos fabricados em laboratório diplomático. Paga em peso desvalorizado toda vez que o Banco Central executa a cartilha do FMI para garantir o serviço da dívida externa. A democracia que lhe oferecem é o direito de assinar o próprio cheque em branco a cada quatro anos.

O segundo turno será celebrado, fotografado, analisado por cientistas políticos com gravatas caras. Especialistas explicarão coeficientes eleitorais, comportamento de eleitor jovem, peso do voto rural. Nenhum deles mencionará que os contratos de exploração já foram assinados antes mesmo das urnas abrirem, que as bases militares americanas em Tolemaida e Larandia não estão em disputa eleitoral, que o serviço da dívida com o FMI não será posto em pauta por candidato algum. Vão eleger um presidente. Não vão eleger um país.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.