Em abril de 1961, mil quatrocentos cubanos exilados desembarcaram numa praia pantanosa do sul da ilha convencidos de que seriam recebidos como libertadores. Foram recebidos por divisões blindadas, pela aviação que os planejadores juraram ter destruído no solo e pelo silêncio sepulcral de uma população que ninguém se deu ao trabalho de consultar. Em setenta e duas horas, a operação que custaria quarenta e seis milhões de dólares de 1961, equivalente a quase meio bilhão atualizado, terminou com mais de cem mortos, mil cento e oitenta e nove prisioneiros e a maior humilhação diplomática da história americana até então. O preço do resgate dos prisioneiros, pago pela Casa Branca em alimentos e remédios, somou cinquenta e três milhões. Cuba virou, da noite para o dia, satélite definitivo de Moscou. Nada saiu como o planejado, exceto a fatura.
O detalhe que raramente aparece nos livros de história escolar é que a invasão não nasceu no Pentágono nem no Departamento de Estado. Nasceu nos corredores de uma agência criada quatorze anos antes para coletar informação e que, sem que ninguém percebesse, transformou-se silenciosamente em ministério paralelo de operações encobertas, com orçamento secreto, prestação de contas inexistente e um corpo dirigente convencido de que sabia governar países alheios melhor do que os próprios habitantes. Os mesmos homens que derrubaram Mossadegh no Irã em 1953 e Árbenz na Guatemala em 1954, embriagados pelo sucesso barato dessas operações, projetaram em Cuba o filme que já tinham assistido. Esqueceram que a plateia agora era diferente, que Fidel não era um aristocrata isolado e que o povo cubano, depois de décadas de Batista e da United Fruit, não estava exatamente nostálgico do antigo regime.
Sigamos o dinheiro, porque é nele que mora o diabo. A operação foi vendida ao presidente recém-empossado por uma corporação burocrática que precisava justificar seu próprio orçamento, validar sua metodologia e, sobretudo, proteger os interesses econômicos americanos confiscados pela revolução. Açucareiras como a American Sugar Refining, refinarias como a Esso e a Texaco, conglomerados como a ITT, todos perderam ativos bilionários quando Havana nacionalizou o que considerava propriedade estrangeira em solo soberano. Cada hectare confiscado tinha um lobista em Washington, cada refinaria perdida tinha um senador disposto a ouvir, cada acionista prejudicado tinha amigos em comissões. A Baía dos Porcos não foi expedição militar, foi tentativa de cobrança extrajudicial financiada pelo cidadão americano comum, que jamais possuiu uma única ação dessas empresas mas pagou pela aventura com seus impostos e, em alguns casos, com o sangue do filho recrutado.
O fascinante na história é o padrão que se repete com precisão de relógio suíço. Sempre há um relatório de inteligência convenientemente alinhado com o que os tomadores de decisão querem ouvir. Sempre há um povo nativo que, segundo os planejadores, está ansioso para ser libertado. Sempre há um exílio organizado em hotéis caros de Miami, Londres ou Doha, prometendo levantes populares que nunca acontecem. Sempre há um inimigo demonizado até virar caricatura, despojado de qualquer racionalidade política, reduzido à figura do louco isolado. Vietnã teve seu Incidente do Golfo de Tonkin, fabricado. Iraque teve suas armas de destruição em massa, inexistentes. Líbia teve seu massacre iminente em Benghazi, jamais comprovado. Síria teve seus moderados, que viraram califado. Cuba foi o protótipo, o ensaio geral, a versão alfa de um software de mentiras institucionalizadas que segue rodando.
O custo humano dessa cegueira imperial nunca aparece nas planilhas. Quem morreu nas areias de Girón eram cubanos lutando contra cubanos, manipulados por terceiros que estavam confortavelmente sentados em escritórios climatizados de Langley. Os prisioneiros apodreceram em celas durante vinte meses. As famílias dos exilados, traídas por uma cobertura aérea que nunca veio porque o presidente a cancelou no último minuto para preservar o disfarce, carregam o luto até hoje. Sessenta e cinco anos de embargo econômico, instituído como vingança pelo fiasco, mataram silenciosamente mais cubanos comuns do que a operação militar matou. Crianças sem remédio, hospitais sem insumo, famílias sem comida, tudo em nome de uma punição coletiva que nunca atingiu a elite revolucionária mas devastou o povo que supostamente seria libertado. A geopolítica adora suas vítimas anônimas.
O mais perturbador é que ninguém foi responsabilizado. Allen Dulles, o diretor da agência demitido após o desastre, escreveu memórias confortáveis e morreu rico. Richard Bissell, o arquiteto do plano, virou consultor empresarial. Os senadores que aprovaram orçamentos secretos seguiram suas carreiras sem um arranhão. A instituição responsável recebeu, nos anos seguintes, aumentos sucessivos de orçamento e novas atribuições. Falhar para cima é o esporte favorito da burocracia da segurança nacional, modalidade na qual nenhum derrotado jamais perde o emprego, apenas ganha uma promoção lateral e um livro de memórias bem pago. Enquanto isso, em algum subúrbio do Kansas, o filho de um soldado morto numa praia tropical cresceu sem pai, sem explicação e sem sequer saber que seu Estado o havia vendido a uma corporação açucareira.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.