O número saiu, e ele incomoda quem ainda acredita que a humanidade caminha em linha reta rumo a algum iluminismo tardio. Em 2025, os Estados do planeta enforcaram, fuzilaram, decapitaram e injetaram veneno em mais pessoas do que em qualquer ano desde 1981, quando ainda havia Cortina de Ferro, ditaduras militares na América Latina e xás recém-derrubados no Oriente Médio. Quatro décadas depois, com toda a retórica de direitos humanos, tribunais internacionais e ONGs bem financiadas, o cadafalso voltou a operar em três turnos. O progresso, ao que parece, é uma narrativa que se vende bem em conferência de Davos e morre rápido na cela do condenado.

O recorde é dominado, como de praxe, por Irã, Arábia Saudita, China e um punhado de regimes que tratam a forca como política industrial. Curiosamente, são quase os mesmos países que vendem petróleo aos compradores certos, compram armas dos fornecedores certos e recebem visitas oficiais com tapete vermelho de chancelarias que, no dia seguinte, publicam comunicados de preocupação. A diplomacia ocidental aprendeu há muito tempo a arte de condenar o enforcamento na segunda-feira e assinar o contrato de defesa na terça. O sangue seca, a comissão fica.

Vale lembrar que a pena de morte sempre foi, antes de qualquer coisa, uma demonstração de soberania. Não se mata o condenado porque a sociedade precisa, mata-se porque o Estado pode. O carrasco é o funcionário público mais simbólico da máquina: ele encarna, num único gesto, a tese de que existe uma instituição autorizada a apagar você da face da Terra sem precisar prestar contas a ninguém além de si mesma. Os reis absolutistas entendiam isso com clareza, e por isso transformavam execuções em espetáculo público. Hoje a coisa é mais discreta, mas a lógica é idêntica: quem detém o monopólio da força detém também o monopólio sobre quem respira amanhã.

Os defensores do patíbulo gostam de falar em dissuasão, justiça, ordem social. É retórica velha, que nunca sobreviveu a uma análise estatística honesta. Países que executam mais não têm menos crime, têm mais Estado. E mais Estado, como a história ensina sem precisar de manual, é menos indivíduo. O cidadão que aplaude o enforcamento do traficante hoje será o mesmo que, daqui a uma década, descobrirá que a definição legal de criminoso foi ampliada para incluir o opositor, o jornalista, o blogueiro inconveniente, o comerciante que não pagou a propina certa. A guilhotina nunca para na primeira cabeça, ela tem fome estrutural.

Há ainda a dimensão econômica que ninguém quer discutir. Manter corredores da morte, construir câmaras de execução, treinar pelotões, importar drogas para injeção letal quando os laboratórios europeus se recusam a fornecer, tudo isso custa dinheiro. Dinheiro do contribuinte, que financia compulsoriamente o ritual de matar em seu nome, mesmo quando discorda. É o velho truque: socializa-se a culpa, privatiza-se a decisão. O sujeito que jamais apertaria o gatilho paga o salário de quem aperta, e ainda recebe a fatura embrulhada em bandeira nacional. Nenhum mercado livre teria estômago para vender esse produto. Só o Estado consegue empurrá-lo goela abaixo.

O salto de 2025 não é um acidente estatístico, é o sintoma de uma era em que governos descobriram, mais uma vez, que medo paga dividendos políticos. Quando a economia aperta, quando a legitimidade racha, quando o povo começa a fazer perguntas inconvenientes, sempre sobra alguém para ser pendurado em praça pública, real ou metaforicamente. O cadafalso é o último argumento dos regimes que ficaram sem argumento. E o mundo, em 1981 como em 2025, continua aprendendo a mesma lição pela enésima vez: onde o Estado decide quem morre, ninguém vive de verdade.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.