Quando a arrecadação vira religião de Estado, nada escapa. Nem o ar, nem a chuva, nem o raio de sol que atravessa a janela do único cômodo da casa alugada com o salário que já foi tributado três vezes antes de cair na conta. O Leviatã não conhece saciedade porque não paga pelo que consome: consome o que os outros produzem, e chama isso de "pacto social". A cada novo furo no orçamento, uma nova genialidade jurídica descobre um "fato gerador" onde antes havia apenas vida.
O truque é sempre o mesmo. Follow the money: o gasto não para de crescer, a máquina não para de inchar, os privilégios da casta não param de se multiplicar. Alguém precisa pagar a conta, e esse alguém nunca é quem assina o decreto. É o sujeito magro da espreguiçadeira, que trabalhou o mês inteiro para ter direito a quinze minutos de sol num sábado à tarde, e que agora descobre que até isso tem alíquota, base de cálculo e obrigação acessória. A criatividade tributária brasileira já ultrapassou qualquer sátira: quando a tira parece exagero, basta abrir o Diário Oficial da semana seguinte para encontrar algo pior.
Mas há uma justiça poética que nenhum burocrata consegue revogar: o sol continua nascendo, o mercado paralelo continua respirando, e o contribuinte, mesmo esmagado, ainda encontra as frestas por onde a vida escapa. O Estado pode taxar o bronzeado, mas não consegue taxar o sorriso de quem sabe que aquele império de papel-carimbo é, no fundo, feito de cinzas esperando a próxima queimadura solar.
A análise e opinião são do O Algoz.