A Taxa do Ar Respirado (com Desconto para Suspiros)
QUADRO 1

Sala escura de mármore, cortinas vermelhas caindo do teto. O Estado, obeso, terno preto lustroso e capa carmesim, está sentado num trono feito de calculadoras empilhadas. Nas mãos, uma caneta-tinteiro

O ESTADO: "Descobri uma nova base tributária, meus queridos. Universal. Involuntária. Vinte e quatro horas por dia."

QUADRO 2

Rua comum. O Contribuinte, magro, olheiras profundas, camisa surrada, para no meio da calçada segurando um panfleto oficial timbrado: "CSOI - Contribuição Social sobre Oxigênio Inspirado - 0,003 centa

BUROCRATA: "É pela saúde pública, cidadão. E pelo clima. E pela educação. E pelo déficit. E pelos estádios."

QUADRO 3

Câmara do Palácio. A Inflação, mulher elegante de vestido vermelho fumegante, sussurra no ouvido do Estado enquanto passa a mão sobre uma pilha de reais que derretem virando poeira. No canto, uma tela

A INFLAÇÃO: "Amor, cobre em real. Até ele chegar no cofre, o cidadão já pagou três vezes." O ESTADO: "Genial. Chame isso de justiça social."

QUADRO 4

Beco escuro à noite. O Contribuinte, sozinho, encostado num muro pichado com "PROIBIDO PROIBIR PROIBIÇÕES". Ele solta uma longa baforada de fumaça branca no ar frio, olhando direto para o leitor com u

O CONTRIBUINTE: "Podem taxar o ar. O último suspiro ainda vai ser meu, e vai ser de alívio quando essa festa acabar."

A criatividade fiscal brasileira em 2026 já não conhece fronteira entre o corpo e o cofre. Enquanto se debate publicamente a taxação de aplicativos, de dividendos, de compras internacionais de cinquenta dólares, de robôs, de streaming, de carteira digital e até de pet, a lógica é sempre a mesma: encontrar um verbo humano que ainda não tenha alíquota. Respirar, dormir, existir. Se puder ser medido, será tarifado. Se não puder ser medido, será estimado por arbitramento.

O truque é antigo e continua funcionando porque o palco muda, o roteiro não. Cria-se uma emergência — climática, sanitária, social, geopolítica —, vende-se a solução como generosidade coletiva e, no fim do mês, quem paga a conta é sempre o mesmo sujeito magro do quarto quadro. O dinheiro impresso vira inflação, a inflação vira imposto invisível, o imposto invisível vira orçamento discricionário, e o orçamento discricionário vira palácio, jatinho, emenda e cargo. Follow the money: ele nunca desce, só sobe.

A boa notícia é que nenhum Leviatã, por mais gordo que engorde, conseguiu ainda tributar o desprezo silencioso de quem paga e sabe que está sendo roubado. É pouco, mas é o começo de tudo. Enquanto restar um contribuinte capaz de rir amargo no escuro, a Besta perde — mesmo faturando. A análise e opinião são do O Algoz.