QUADRO 1

Manchete de jornal voando no ar: "RECEITA LANÇA DBFT — DECLARAÇÃO ANUAL DE FELICIDADE". Ao fundo, O ESTADO, obeso, terno preto e capa vermelha esvoaçante, olhos amarelos brilhando, ri de boca escancar

O ESTADO: "Cidadãos! Detectamos uma economia paralela GIGANTESCA circulando entre os cantos da boca de vocês!"

QUADRO 2

Sala apertada de repartição, luz fluorescente piscando. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras, camisa surrada, encara um BUROCRATA que segura um "sorrisômetro" — aparelho ridículo com ventosas e antena. A I

BUROCRATA: "Senhor, o aparelho detectou 0,4 segundos de contentamento espontâneo em março. Alíquota de 34%, mais Selic, mais multa por não declarar em tempo real."

QUADRO 3

O CONTRIBUINTE, agora com o rosto puxado para baixo por dois grampos de roupa presos aos cantos dos lábios, entrega um envelope vazio. O ESTADO, ao fundo numa tela de TV, comemora ao lado da INFLAÇÃO

O ESTADO (na TV): "Vejam! O brasileiro finalmente entendeu a gravidade do momento fiscal!"

QUADRO 4

Close no rosto do CONTRIBUINTE. Ele arranca os grampos. Abre um sorriso enorme, torto, desafiador, quase demente — o sorriso de quem não tem mais nada a perder. O ESTADO, na TV ao fundo, engasga com a

O CONTRIBUINTE: "Pode taxar à vontade, gordo. Rir de vocês ainda é o único imposto que EU cobro — e vocês pagam sempre em dobro."

A cada ciclo, o Leviatã descobre uma nova fronteira do humano para colonizar. Já tributou a renda, o consumo, o patrimônio, a herança, o trabalho, o ócio, o combustível, o cigarro, o refrigerante, o streaming, o dividendo, o CNPJ da padaria da esquina. Agora, com o rombo fiscal engolindo o próprio rombo, a fronteira é o afeto: o sorriso, o suspiro, o gozo de estar vivo. É o desdobramento lógico de um sistema que trata cada respiração livre como subsídio implícito que o cidadão estaria dando a si mesmo — e ao qual o Estado, credor universal e não convidado, exige participação.

Chame de DBFT, CBS, IBS, CPMF ressuscitada, "contribuição temporária" que dura três décadas — o nome muda, a mecânica é a mesma. Follow the money: o dinheiro sai do bolso de quem produz e desemboca em folha inchada, emenda de fim de ano, subsídio a banco quebrado e propaganda oficial explicando por que era necessário roubar. Enquanto isso, imprime-se moeda para financiar a farra, e a femme fatale de vestido vermelho derrete o pouco que sobrou. O truque é velho: o Estado inventa o incêndio, vende o extintor, taxa a fumaça e prende quem tossir.

Mas há um imposto que o gordo de capa nunca conseguiu recolher: o riso de quem enxergou o truque. Enquanto o contribuinte sorrir do absurdo, o Leviatã perde — porque medo é a única moeda em que ele é realmente solvente, e o deboche é a hiperinflação do medo. Ria alto. É sonegação moral, e é a única que vale a pena.

A análise e opinião são do O Algoz.