Palco iluminado, cortinas vermelhas. O ESTADO, gordo e suando de empolgação, segura um smartphone gigantesco brilhando. Atrás dele, um telão com o logo "MOEDA SOBERANA DIGITAL - O FUTURO É AGORA". Pla
O ESTADO: "Cidadãos! Chega do dinheiro de papel, sujo e ANÔNIMO! Apresento a moeda digital soberana: rápida, segura e... programável!"
Close no ESTADO cochichando com A INFLACAO, que está encostada numa coluna de mármore com um vestido roxo, unhas compridas, segurando uma taça derretendo. Ambos com sorriso maligno. Um BUROCRATA passa
O ESTADO (sussurrando): "Programável no sentido de que EU programo onde, quando e SE você pode gastar." A INFLACAO: "Ai, meu amor... isso me excita."
O CONTRIBUINTE, magrelo e de olheiras, no caixa de uma padaria tentando pagar um pão francês. O celular na mão dele piscando em vermelho com mensagens: "COMPRA NEGADA - COTA MENSAL DE CARBOIDRATO EXCE
O CONTRIBUINTE: "Mas... é só um pão." VOZ DO CELULAR: "Detectamos padrão de consumo incompatível com o Índice de Cidadão Exemplar. Sugerimos tofu credenciado."
O CONTRIBUINTE saindo da padaria mastigando o pão, satisfeito. Na mão, uma nota de real amassada e amarelada. Ao fundo, o ESTADO histérico gritando pela janela de uma limusine preta, apontando o dedo.
O CONTRIBUINTE: "Fica com a sua moeda soberana. Eu prefiro a minha, que é só burra... não é dedo-duro."
Toda vez que o Leviatã usa a palavra "modernização", prepare o bolso e tranque a porta. A moeda digital do banco central não é inovação tecnológica: é a realização do sonho úmido de todo burocrata desde que o homem inventou a troca. Um dinheiro que obedece. Um dinheiro que vigia. Um dinheiro que, com um clique num painel em Brasília, pode ser congelado, expirado, tributado na fonte, restrito por categoria de consumo ou simplesmente apagado porque você postou a coisa errada na terça-feira.
Vendem como conveniência. Falam em inclusão financeira, em combate à sonegação, em eficiência. Follow the money: quem ganha com a rastreabilidade total de cada centavo que sai da sua mão? Não é você. Não é o padeiro. É o mesmo sujeito de terno e capa que já confisca metade do que você produz por vias analógicas e agora quer o outro lado da equação: o controle do gasto. Não basta tomar; agora quer decidir também o que sobra.
O dinheiro em espécie é feio, ineficiente, sujo e imperfeito. É também a última trincheira do sujeito comum contra o olho onipresente. Um pão pago em papel é um ato quase revolucionário num mundo onde até o cafezinho vira metadado. Enquanto houver uma nota amassada no bolso do cidadão, existe um pedaço de liberdade que o Soberano ainda não digitalizou. A análise e opinião são do O Algoz.