A Reforma Tributária que Simplificou Tudo (Menos o Bolso)
QUADRO 1

Salão dourado, pomposo. O ESTADO, obeso, capa vermelha esvoaçante, sorriso de orelha a orelha, ergue um pergaminho gigante diante de uma multidão de BUROCRATAS clones idênticos que aplaudem em sincron

O ESTADO: "Cidadãos! Chega de complicação! Unifiquei PIS, Cofins, ICMS, ISS, IPI e mais 43 tributos em um só! Chama-se CBS-IBS-IS-CIDE-DARF-PLUS!"

QUADRO 2

O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa amassada, segura um boleto do tamanho de um lençol que se desenrola pelo chão. Ao lado, A INFLAÇÃO, elegante em vestido vermelho de fumaça, sopra beij

O CONTRIBUINTE: "Mas... aqui diz que a alíquota unificada é de 47,3%..." A INFLAÇÃO: "Querido, é só a alíquota-base. O adicional-seletivo-corretivo-ambiental vem por fora."

QUADRO 3

Repartição pública kafkiana. Corredor infinito com portas numeradas. O CONTRIBUINTE, agora com barba crescida, na fila 4172. Um BUROCRATA atrás do guichê, óculos redondos, carimbo na mão, aponta para

BUROCRATA: "Simplificamos. Antes eram 28 formulários." O CONTRIBUINTE: "E o portal unificado?" BUROCRATA: "Está em manutenção desde a promulgação."

QUADRO 4

O ESTADO, agora ainda mais gordo, sentado num trono feito de boletos, roendo uma coxa de galinha assada. Diante dele, o CONTRIBUINTE esquelético, de cueca, entrega a última moeda numa bandeja de prata

O ESTADO: "Viu como ficou mais leve para você?" O CONTRIBUINTE (olhar desafiador, sorriso torto): "Leve é o que sobrou de mim. Pesado é você — e um dia a cadeira quebra."

Toda vez que A Besta anuncia "simplificação", o cidadão deveria trancar a porta e esconder a carteira. A palavra é sempre a mesma isca: promete-se um imposto único, uma sigla enxuta, um portal limpo — e o que chega é uma nova camada de siglas empilhadas sobre as antigas, com alíquotas que nunca caem e "adicionais corretivos" que ninguém entende. A conta segue a mesma regra imutável: follow the money. Se a arrecadação sobe, não foi simplificação, foi engenharia de camuflagem.

O truque é elegante. Trocam-se cinco tributos visíveis por um tributo invisível, embutido no preço, escondido no boleto, diluído em contribuições "temporárias" que atravessam décadas. O Contribuinte aplaude no primeiro mês, porque o carnê veio menor. No segundo, descobre que agora paga em cada café, em cada litro de gasolina, em cada clique. A burocracia não foi extinta — foi terceirizada para o cidadão, que agora preenche sozinho o que o contador preenchia antes.

Enquanto isso, o exército de fardas cinzas cresce, os salários do andar de cima são reajustados por lei própria, e o discurso oficial repete que "o sistema ficou mais justo". Justo para quem carimba. Absurdo para quem produz. A reforma que interessa nunca virá de dentro do Leviatã — porque nenhum monstro assina o próprio jejum. A análise e opinião são do O Algoz.