Sala de reunião sombria, iluminada por um abajur verde de banqueiro. O ESTADO, gordo, terno escuro e capa vermelha esvoaçante, está sentado numa cadeira giratória examinando um gráfico gigante intitul
O ESTADO: "Cavalheiros... temos um problema fiscal gravíssimo. O povo ainda respira sem pagar."
Cadeia nacional de TV. O ESTADO discursa num púlpito de mármore rachado, capa vermelha caindo dramaticamente. Ao fundo, uma bandeira verde-amarela desbotada e um telão com o slogan: "RESPIRAR É UM PRI
O ESTADO: "Instituímos hoje a Contribuição de Intervenção no Domínio Respiratório. É pela justiça social. E pelo clima. E pelo Pix. Principalmente pelo Pix."
Fila kafkiana num prédio público caindo aos pedaços. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, roupa surrada, bolsos virados do avesso, segura uma senha com o número 8.294.771. Ele veste uma máscara-
BUROCRATA: "O senhor respirou 4% acima da cota trimestral. Multa, juros, e uma taxa de emissão de guia pra pagar a multa." CONTRIBUINTE: "E se eu parar de respirar?" BUROCRATA: "Aí incide ITCMD."
Rua vazia à noite. O CONTRIBUINTE está sozinho sob um poste tremulante, máscara-medidor no rosto, olhando diretamente para o leitor. Ao fundo, a silhueta gigantesca do ESTADO paira sobre a cidade como
CONTRIBUINTE: "Diz aí, Excelência... se eu explodir agora, isso conta como sonegação ou como devolução antecipada de tributo?"
Em 2026 o Brasil já naturalizou o inominável: uma carga tributária que passa de 33% do PIB, uma reforma tributária que prometeu simplificar e entregou três siglas novas (CBS, IBS e o famoso Imposto Seletivo, o "imposto do pecado" que hoje já mira refrigerante, agrotóxico, minério e, adivinhe, amanhã mira o que der na telha do regulador). A cada trimestre surge uma "contribuição de intervenção" nova, sempre com nome bonito, sempre provisória, sempre eterna. O truque é velho: batizar confisco de solidariedade e cobrar aplausos junto com o boleto.
Enquanto isso, o Banco Central segue apertando o SELIC para conter a fogueira que o próprio Tesouro alimenta com gasto público em máxima histórica. Traduzindo: o Estado incendeia a casa, vende extintor, cobra ICMS no extintor, cria taxa de fiscalização do extintor e ainda te multa porque o extintor não tinha selo. Follow the money: cada nova alíquota não financia hospital nem escola, financia a máquina que inventou a alíquota. Burocrata contrata burocrata para fiscalizar burocrata, e no fim da fila está sempre o mesmo sujeito magro segurando a senha.
O contribuinte brasileiro já entendeu o jogo, mas finge que não para não ser preso por desacato fiscal. Ele sabe que a próxima fronteira do imposto é o ar, e depois será o pensamento — aliás, a "regulação de plataformas digitais" já está ensaiando esse passo com nome de proteção à democracia. A liberdade não morre com estrondo: morre parcelada em 60x no cartão, com juros do rotativo e taxa de conveniência.
A análise e opinião são do O Algoz.
