A manchete ocidental chama de "dilema humanitário". O camponês de Bint Jbeil chama pelo nome verdadeiro: sentença. Ficar na casa que o avô construiu significa dormir com o barulho dos caças israelenses sobrevoando o telhado, sabendo que um algoritmo em Tel Aviv pode decidir, às três da manhã, que aquele endereço é um "alvo militar legítimo". Fugir significa engrossar a fila de um milhão e duzentos mil deslocados internos, disputar um colchão em escola pública de Beirute, ver a poupança de uma vida evaporar em aluguel temporário e pão dolarizado. A escolha é entre a bala e a miséria, e os dois caminhos foram pavimentados pelo mesmo cartel de gente que nunca pisou no Vale do Bekaa.
Convém lembrar que o Líbano não acordou pobre por acaso. O país quebrou em 2019 num dos maiores colapsos financeiros desde a Segunda Guerra, com a libra libanesa perdendo noventa e oito por cento do valor, poupanças confiscadas pelos bancos sob aplausos do Fundo Monetário, e uma classe política que transformou o Estado num caixa eletrônico privado. Sobre esse cadáver econômico, despejaram agora uma guerra. É a velha receita: primeiro se arruína a moeda, depois se arruína o território, e no fim chega o consultor internacional com um pacote de "reconstrução" amarrado a privatizações, concessões portuárias e empréstimos que três gerações de libaneses vão pagar. A Beirute do pós-guerra civil já foi reconstruída assim nos anos noventa, e o resultado foi um centro histórico que virou shopping para sauditas enquanto o subúrbio continuou sem esgoto.
Siga o rastro das bombas e o mapa fica claro. Cada JDAM que cai sobre Tiro sai de uma linha de montagem em Saint Louis ou Tucson, foi pago com imposto do operário americano via pacote de "ajuda militar", atravessa o Atlântico em frete subsidiado, e explode sobre uma família que jamais votou em congressista algum. Do outro lado, o arsenal do Hezbollah chega por rotas que passam por Damasco e Teerã, financiado por petróleo vendido apesar de sanções que asfixiam o iraniano comum mas nunca incomodam o general. Os acionistas da Lockheed, da Raytheon, da Elbit e dos intermediários iranianos brindam no mesmo champanhe, só com rótulos diferentes. Guerra é o único mercado onde comprador e vendedor concordam em destruir o produto para repor o estoque.
A imprensa internacional insiste em enquadrar o drama como tragédia sem autores, como se mísseis caíssem por meteorologia. Mas há autores, endereços e balanços trimestrais. Há um governo israelense que precisa de guerra permanente para adiar julgamentos internos. Há uma milícia xiita que precisa de guerra permanente para justificar seu Estado paralelo dentro do Líbano. Há potências ocidentais que precisam da instabilidade libanesa para manter bases, vender armas e bloquear qualquer alternativa energética que desvie do eixo do Golfo. E há, no meio disso tudo, o pescador de Naqoura que não lê geopolítica, apenas vê o barco queimado no porto e a filha de sete anos perguntando por que a escola não abre mais.
Há um padrão histórico que os impérios insistem em repetir porque funciona contabilmente. Desloca-se a população, desvaloriza-se a terra, compra-se barato através de fundos de reconstrução, revende-se caro quando a poeira baixa. Foi assim no sul do Líbano em 2006, na Faixa de Gaza em ciclos sucessivos, no leste da Ucrânia, nos Bálcãs dos anos noventa, na Alemanha arrasada do Plano Marshall. O nome técnico é destruição criativa; o nome honesto é pilhagem com cobertura aérea. Quem sai da aldeia raramente volta, e quando volta encontra a escritura contestada por uma empresa de Chipre cujo beneficiário final mora em Londres.
No fim, a pergunta "ficar ou ir" é falsa porque pressupõe agência onde não existe. O libanês do sul não escolhe, apenas sobrevive ao cardápio de ruínas que lhe serviram. Os que ficam serão manchete de um dia. Os que partem serão planilha de ONG por uma década. E os que lucram, esses nunca aparecem na foto, porque estão em reuniões de diretoria discutindo guidance para o próximo trimestre. O Estado manda, o mercado de armas fatura, e o cidadão sangra em aramaico, árabe e silêncio.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.