Sábado de manhã, Nova York acorda com as plataformas vazias. Três mil e quinhentos trabalhadores ferroviários decidiram, em assembleia, que o tráfego de centenas de milhares de pessoas comuns ficaria suspenso até que suas exigências fossem atendidas. A imprensa chama isso de greve geral, palavra solene que esconde a coisa banal por trás: um pequeno grupo, organizado e protegido por lei, fechando a torneira para forçar o aumento do próprio salário. A faxineira que precisa pegar dois trens para chegar ao turno da madrugada, o entregador que vive de gorjeta, o estudante que perdeu a prova, esses não foram convocados para a votação. Eles entram apenas como reféns.
É curioso o vocabulário que cerca essas paralisações. Fala-se em luta, em resistência, em dignidade do trabalho, como se estivéssemos diante de mineiros oprimidos do século dezenove arrancando carvão à luz de lampião. A realidade é mais prosaica. Ferroviário de Nova York ganha, com benefícios incluídos, mais que professor universitário em boa parte do mundo. Tem plano de saúde, aposentadoria integral, estabilidade que faria inveja a qualquer profissional liberal. A greve não é o grito do desesperado, é a alavanca do privilegiado. E funciona precisamente porque o serviço é monopólio. Tente fazer greve geral numa padaria: amanhã a esquina tem outras três.
Aqui mora o truque que ninguém quer ver. O sistema ferroviário metropolitano não é uma empresa comum disputando clientes, é um aparato estatal blindado contra a concorrência. Ninguém pode chegar e oferecer trem alternativo, ônibus expresso paralelo, transporte sob demanda em escala. A lei proíbe, a regulação asfixia, a prefeitura cartoriza. Criou-se assim um feudo perfeito, no qual o produtor está protegido da competição e o consumidor está obrigado a pagar pelo serviço, custe o que custar. Quando esse mesmo produtor decide parar, o usuário não tem para onde correr. É o casamento sem divórcio, na pior das versões.
Siga o dinheiro, sempre. Os reajustes que os sindicatos vão arrancar não saem do bolso do governador que aperta a mão deles para a foto, nem do bolso dos diretores que assinam o acordo. Saem do passageiro, via tarifa, e do contribuinte, via subsídio. O político alivia o conflito imediato concedendo aumento, recebe em troca o cabo eleitoral nas próximas urnas, e empurra a conta para a frente como se chutasse uma lata pela calçada. Daqui a dois anos, quando a passagem dobrar ou o sistema implodir por falta de manutenção, a culpa será do mercado, do capitalismo, da inflação misteriosa que ninguém sabe de onde vem. Os mesmos que aplaudiram a greve hoje vão xingar o preço amanhã.
O caso lembra as corporações de ofício da velha Europa, aquelas guildas medievais que controlavam quem podia ser sapateiro, quem podia ser ferreiro, quanto cada um podia cobrar. Demoliram-nas em nome do progresso, e por boas razões: travavam a vida econômica e enriqueciam um clube fechado às custas da multidão. Voltaram com outro nome, outra retórica, outras gravatas, mas a essência é idêntica. Reserva de mercado, monopólio de fato, extração de renda pela força. A diferença é que a guilda antiga não fingia estar lutando pelos pobres; tinha a honestidade da arrogância. A versão atual veste camiseta vermelha e pede solidariedade.
Enquanto isso, a costureira haitiana que mora no Queens caminha quinze quadras no frio porque alguém, em nome dela, resolveu defender seus interesses. Curioso conceito de solidariedade, esse, no qual o solidarizado é o último a saber e o primeiro a pagar. Quem paga? O passageiro, o contribuinte, o cidadão comum sem sindicato, sem lobista, sem assento na mesa. Quem recebe? O aparato sindical que vende organização, o político que vende mediação, a categoria que vende paz. O resto é coreografia. E o trem, esse, continua parado.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.