A cena se repete em todo lançamento de moto importada no Brasil: o resenhista descreve com adjetivos derretidos o som dos três cilindros, a progressividade do torque, a leveza do chassi, a eletrônica útil, e segue como se a máquina tivesse brotado da fábrica de Hinckley diretamente na concessionária de Moema por obra do Espírito Santo do livre comércio. Ninguém abre a planilha. Ninguém destrincha por que a mesma Tiger Sport 660 que um sujeito compra em Manchester por uma bagatela mensal aqui exige sacrifício de quatro anos de poupança de um analista pleno. A motocicleta é boa, isso é fato, e justamente por ser boa funciona como prova de laboratório para o experimento mais antigo do continente, que é o de cobrar pedágio sobre todo desejo legítimo do cidadão.

Siga o caminho do dinheiro e a fantasia se desfaz. Sobre o preço de origem incide imposto de importação, depois IPI, depois PIS, depois Cofins, depois ICMS calculado por dentro, ou seja, imposto cobrado sobre imposto, numa cascata que faria corar qualquer coletor de tributos do Antigo Regime. Some o frete, o despachante, a margem do importador oficial cuja existência é garantida por reserva de mercado disfarçada de homologação, e o resultado é uma máquina de duas rodas com etiqueta de carro de luxo europeu. Quem paga, óbvio, é o motociclista. Quem recebe, em primeiro lugar, é a burocracia que se financia com a pilhagem, e em segundo lugar a indústria nacional protegida, que assim pode vender sua trail pesada e cara sem precisar competir de verdade.

O argumento da proteção é o mais velho dos sofismas e segue rendendo dividendos políticos justamente porque nunca foi auditado. Diz a cartilha oficial que a tarifa pesada existe para preservar empregos na fábrica do interior paulista. A premissa maior seria que tarifa gera emprego. A premissa menor seria que esse emprego custa menos do que o prejuízo difuso imposto a milhões de consumidores. Basta fazer a conta para a conclusão desmoronar: cada vaga preservada artificialmente custa, em sobrepreço pago pelo público, várias vezes o salário daquele operário. Não se está defendendo o trabalhador, está se transferindo renda do bolso do comprador para o caixa do industrial amigo do gabinete. O resto é literatura para palanque.

E há o detalhe saboroso, quase cômico, de a Tiger Sport 660 ser louvada justamente por ter manutenção mais leve do que as big trails que dominam o catálogo nacional. Ou seja, a máquina é elogiada por escapar parcialmente do segundo cerco, o da revisão em concessionária autorizada, onde óleo se cobra a peso de uísque escocês e mão de obra se factura em hora de cirurgião plástico. O sujeito compra a moto sobretaxada, paga seguro sobretaxado, abastece com gasolina cuja metade do preço é tributo e ainda assim a notícia é que esta inglesa específica vai sangrar um pouco menos. Comemorar isso é o equivalente a aplaudir o carrasco por afiar o machado, ato de gentileza que torna a execução mais limpa.

O ponto que nenhum jornalismo de catálogo vai tocar é que toda essa engenharia de preço não foi resultado de catástrofe natural nem de praga bíblica. Foi decidida em gabinete, votada por parlamentar financiado por lobby setorial e executada por agente fiscal que vive do dízimo do contribuinte. Existe um nome técnico para quando um pequeno grupo organizado impõe custo difuso sobre uma multidão desorganizada, e esse nome não é política pública, é captura. A moto, coitada, é só o objeto. O verdadeiro produto à venda é a passividade do comprador, treinado durante décadas a achar normal pagar três vezes pelo que o resto do mundo paga uma.

No fim, a Tiger Sport 660 é mesmo a ponte ideal entre cidade e estrada, como diz o título original, mas é também a ponte ideal entre o bolso do cidadão e o cofre de quem nunca apertou um parafuso na vida. A pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta segue de pé: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito que acorda às seis, encara o trânsito e sonha em rodar uma serra no fim de semana. Recebe o cartel tributário, o concessionário protegido e o ministro que aparece em foto inaugurando linha de montagem que só existe porque o resto do país está proibido, na prática, de comprar o concorrente. O ronco dos três cilindros é bonito. O ronco do confisco, que toca por baixo, é que precisava ser ouvido.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.