Donald Trump concedeu entrevista à Fox News e anunciou, com a solenidade de quem corta a cabeça de um inimigo imaginário, que imporia tarifas de até 50% sobre produtos chineses caso se confirme que Pequim está fornecendo apoio militar ao Irã. A frase saiu redonda, cinematográfica, exatamente do jeito que a base eleitoral gosta: um presidente de punho fechado, voz grave, olhando para a câmera e dizendo ao mundo que a festa acabou. O problema é que a festa, como sempre, continua, e o garçom que apresentará a conta já tem endereço: é o trabalhador americano que compra eletrônicos, roupas, ferramentas e brinquedos fabricados na China.

Existe uma confusão tão antiga quanto os próprios estados que a perpetuam: a ideia de que tarifa é uma punição dirigida ao país exportador. Não é. Nunca foi. Quando Washington impõe uma alíquota sobre produtos chineses, quem paga é o importador americano, que repassa ao varejista americano, que repassa ao consumidor americano. O fabricante chinês sente o impacto apenas na medida em que perde contratos, e mesmo assim costuma redirecionar sua produção para outros mercados, enquanto o cidadão de Des Moines paga mais caro pela televisão. Nos anos 1930, o Congresso americano aprovou a lei Smoot-Hawley, impondo tarifas monstruosas sobre centenas de produtos importados para "proteger a indústria doméstica". O resultado foi uma retração brutal do comércio mundial, retaliações em cascata e o aprofundamento da Grande Depressão. A lição foi esquecida com a mesma velocidade com que os políticos costumam esquecer qualquer coisa que não renda votos na próxima eleição.

Mas há uma segunda camada nessa história que o comentarista de plantão raramente para para examinar: por que o Irã está onde está, e por que a China estaria eventualmente interessada em fortalecê-lo? O Irã que existe hoje, esse estado teocrático beligerante com apetite por influência regional, é em larga medida uma criação involuntária da política externa americana. Em 1953, a CIA derrubou um governo eleito democraticamente em Teerã para reinstalar um xá favorável aos interesses ocidentais. A Revolução Islâmica de 1979 foi, entre outras coisas, a resposta histórica a essa intervenção. Décadas depois, a invasão do Iraque destruiu o principal contrapeso regional ao poder iraniano, jogando de presente às mulás a influência que os americanos tinham passado décadas tentando conter. O Oriente Médio que Trump herdou é o Oriente Médio que a política intervencionista construiu, tijolo por tijolo, crise por crise.

A China, por sua vez, não é um ator inocente, mas tampouco é o demônio que a narrativa americana precisa que ela seja para dar sentido ao próprio imperialismo comercial de Washington. Pequim tem interesses claros no Irã: petróleo, rotas comerciais, e o projeto mais ambicioso de infraestrutura da história recente, a Nova Rota da Seda. Apoiar militarmente Teerã, ainda que de forma indireta, é parte de uma estratégia geopolítica que tem uma lógica própria, reconhecível e previsível para qualquer analista honesto. O que Washington chama de "desestabilização" é, do ponto de vista chinês, construção de esferas de influência, exatamente o que os próprios Estados Unidos fizeram durante o século inteiro que durou sua hegemonia incontestada. Dois impérios disputando o mesmo tabuleiro e fingindo que as regras valem apenas para o adversário é o espetáculo mais velho do mundo.

Segue-se daí uma contradição que merece atenção: os Estados Unidos financiam seu déficit astronômico vendendo títulos do Tesouro, e quem compra boa parte desses títulos é, historicamente, a China. O país que Trump ameaça com tarifas punitivas é o mesmo país que empresta dinheiro ao governo americano para que ele possa continuar gastando além do que arrecada. É como ameaçar de processo judicial o credor que sustenta seu padrão de vida. A ameaça tem peso retórico e nenhum peso lógico, porque qualquer escalada real destrói um sistema de interdependência financeira que convém simultaneamente a Pequim e a Washington, por razões distintas, mas igualmente poderosas. O barulho, portanto, é para consumo doméstico. A audiência é o eleitor americano, não o Politburo.

O resultado prático dessas declarações incendiárias é sempre o mesmo: mercados oscilam, analistas correm para os microfones, colunas são escritas, e no fim do dia os mesmos fluxos de capital continuam circulando pelos mesmos canais, ligeiramente perturbados, nunca realmente interrompidos. Quem perde nesse teatro são sempre os mesmos: o trabalhador que paga mais caro pelo produto importado, o empresário que perdeu contratos por causa de retaliações que não compreendeu, o contribuinte que financia a máquina bélica-diplomática sem ter sido consultado sobre seus objetivos. O Estado, em todas as suas variantes nacionais, avança. A liberdade, sempre, recua.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.