Dois homens sentados numa mesa em Pequim. Câmeras, sorrisos protocolares, apertos de mão coreografados milimetricamente para o noticiário da noite. O presidente americano e o presidente chinês reencenam, pelo segundo dia seguido, a peça mais lucrativa do século vinte e um: a rivalidade controlada entre dois Estados que precisam um do outro tanto quanto fingem se odiar. Cada palavra escapada de Pequim move trilhões em mercados futuros. Cada gesto faz acionistas em Nova York e em Xangai brindarem em silêncio. E o trabalhador americano endividado, o operário chinês exausto e o consumidor brasileiro que paga importação cara seguem o seu papel histórico: pagar o ingresso da função sem entender o roteiro.
O enredo oficial fala em comércio, tarifas, segurança regional, Taiwan, fentanil, soja. O enredo real fala em chips de sete nanômetros, em terras raras que a China refina sozinha enquanto o resto do mundo finge soberania tecnológica, em rotas marítimas onde meio planeta navega sob a tolerância tácita de Pequim. Quando o americano ameaça tarifar, o chinês ameaça cortar gadolínio, neodímio, disprósio. Quando o chinês ameaça desvalorizar o yuan, o americano ameaça expulsar empresas das bolsas. É xadrez jogado com peças vivas, e as peças vivas são fábricas inteiras, cidades inteiras, gerações inteiras de trabalhadores que serão sacrificadas na próxima rodada de protecionismo travestida de patriotismo.
Há uma simetria deliciosa no espetáculo. O lado americano grita liberdade e impõe controles de exportação que fariam corar qualquer burocrata soviético dos anos setenta. O lado chinês grita socialismo e abre zonas econômicas onde a exploração da mão de obra faria corar qualquer barão industrial vitoriano. Os dois sistemas convergiram para o mesmo lugar: capitalismo de Estado, oligarquias incrustadas no poder, mídia disciplinada, dissidência tratada como ameaça nacional. A diferença é apenas estética. Em Washington a censura se chama moderação de conteúdo, em Pequim se chama harmonia social. O efeito sobre o cidadão é idêntico.
Siga o dinheiro e a fumaça do encontro se dissipa. Por trás das tarifas, há fabricantes de semicondutores que ganham bilhões com qualquer cláusula de exclusão. Por trás das sanções, há firmas de compliance que cobram fortunas para ensinar empresas a obedecer. Por trás da retórica anti China, há fundos de investimento americanos com posições gigantescas em Hong Kong. Por trás da retórica anti Estados Unidos, há famílias do partido comunista com filhos em Harvard e patrimônio em Manhattan. As elites das duas potências jantam juntas em Davos, casam seus filhos em Mônaco, escondem patrimônio nos mesmos paraísos fiscais. A nova guerra fria é a maior fusão de interesses cruzados que o mundo já viu, vendida ao público como confronto civilizacional.
Enquanto isso, o Brasil entra em cena como figurante útil. Vendemos soja a um, minério ao outro, e compramos manufaturado caro dos dois. Quando o dólar oscila por causa de uma frase mal interpretada em Pequim, é o aposentado de São Paulo que sente no preço do remédio. Quando o yuan se desvaloriza, é o produtor de Mato Grosso que aperta a margem. A periferia do sistema sempre paga a conta do centro, e a conta hoje vem em forma de inflação importada, juros altos, câmbio volátil. Os impérios brigam, os vassalos sangram. Mudou o século, mudou a tecnologia, não mudou a geometria do poder.
O resultado do encontro será anunciado como vitória pelos dois lados, porque na diplomacia moderna não existe derrota, existe apenas a próxima rodada de negociação travestida em comunicado conjunto. Haverá compromissos vagos, prazos elásticos, cláusulas de revisão. Haverá fotos. Haverá manchetes elogiando a maturidade dos líderes. E em algum escritório de lobby em Virgínia, em algum gabinete do partido em Pequim, alguém abrirá uma garrafa cara para celebrar mais um trimestre de lucros garantidos pela tensão administrada. A guerra fria não acabou, foi privatizada. E o cidadão comum continua o que sempre foi: o personagem que paga o cenário e nunca entra no camarim.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.