Donald Trump publicou, na noite de domingo, um ataque direto ao Papa Leão XIV pelo Truth Social, sua tribuna digital predileta. O motivo: o pontífice, primeiro papa de origem norte-americana da história da Igreja Católica, teve a audácia de fazer condenações veladas à condução da guerra americana contra o Irã. Trump não gostou. Chamou-o de "fraco" e declarou preferir, com todas as letras, um irmão identificado como "MAGA" ao próprio sucessor de Pedro. Leiam novamente, devagar, para que a magnitude do absurdo caiba na consciência: o presidente dos Estados Unidos, na plenitude do cargo, declarou publicamente que o Papa eleito não é suficientemente alinhado às suas preferências políticas, como se a Sé Apostólica fosse uma secretaria do gabinete aguardando aprovação do Senado.

Há uma palavra técnica para isso, e ela não é "polêmica", não é "retórica intempestiva", não é o famigerado "é o jeito dele". A palavra é cesaropapismo, o vício imperial que os séculos mediévais conheceram bem e que custou rios de sangue para ser contido. Toda vez que o poder secular decidiu que também lhe competia determinar o que a religião deveria ensinar, defender ou condenar, o resultado foi invariavelmente o mesmo: ou a Igreja capitulou e virou instrumento de propaganda, ou houve ruptura violenta. Henrique VIII construiu uma nova Igreja porque a legítima não o obedecia no assunto do divórcio. Napoleão arrastou um papa até Paris como troféu e tratou o papado como departamento das Relações Exteriores da França. O czar russo governava como chefe da Igreja Ortodoxa por decreto. Nenhum desses experimentos terminou bem, nem para a Igreja, nem para os imperadores. A história tem esse charme pedagógico que os poderosos insistem em ignorar.

O que torna este episódio particularmente revelador não é o tom, que é o tom habitual de Trump, o bravado de quem descobriu que provocação gera clique e clique gera poder, mas a substância crua do argumento. Trump não discutiu teologia, não apresentou nenhuma objeção doutrinária à posição do Papa, não argumentou por que a posição da Igreja estaria factualmente errada. Simplesmente declarou que o Papa não serve ao projeto político correto, e que um "irmão MAGA" seria preferível. Isso é, numa análise fria e sem concessões sentimentais, o reconhecimento explícito de que a expectativa é de que a religião sirva à política, e não o contrário. É a inversão completa de qualquer ordem moral séria, de qualquer tradição que ainda mereça o nome de conservadora. Porque o conservadorismo autêntico, aquele que não é fantasia de campanha eleitoral, sempre reconheceu que existe uma autoridade que não emana do Estado, que existe uma dimensão da vida humana que o soberano não administra, e que tentar invadir esse espaço é a marca do tirano, não do estadista.

E aqui a lógica política encontra a lógica do dinheiro, porque o poder raramente é apenas simbólico. A guerra contra o Irã tem custos, contratos, fornecedores, fluxos de capital que passam por lugares específicos com nomes e sobrenomes registrados nos documentos corretos. Uma Igreja que levanta a voz contra a condução dessa guerra não está sendo "fraca", está sendo, na mais rigorosa acepção da palavra, inconveniente para interesses que ultrapassam em muito a esfera religiosa. Quando o poder chama alguém de "fraco", a primeira pergunta inteligente é sempre a mesma: fraco para quem? Fraco, nessa boca, significa que não serve, que não obedece, que não se subordina. Leão XIV não é fraco. Leão XIV simplesmente não é útil. E a diferença entre as duas coisas revela com precisão cirúrgica de onde vem o ataque e para onde aponta.

O que está em jogo não é a personalidade de Trump, que é o que é e não surpreende mais ninguém com capacidade de prestar atenção. O que está em jogo é o modelo mental que essa declaração expõe a céu aberto: a ideia de que a fé deve ser um apêndice da facção, de que o religioso deve confirmar o que o político já decidiu, de que a consciência espiritual de mais de um bilhão de católicos deve estar sujeita ao mesmo critério de utilidade que se aplica a um secretário de Estado ou a um general recalcitrante. Isso não é MAGA. Isso não é America First. Isso é a mentalidade do comissário político vestida com bandeira americana, que avalia cada instituição pelo único critério que lhe interessa: está conosco ou está contra nós? Uma Igreja que aceita essa dicotomia perde a sua alma antes de perder seu patrimônio. E um presidente que exige essa aceitação deixa claro, sem ambiguidade e sem espaço para interpretação caridosa, que para ele não existe nenhuma instância acima do seu projeto. Nenhuma. Nem mesmo aquela que, supostamente, todos os domingos, ele diz reverenciar.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.