Trump disse, com a sobriedade habitual de quem governa pelo Twitter ressuscitado, que qualquer país que forneça armamento ao Irã receberá uma tarifa de 50% sobre seus produtos. A China, principal suspeita da vez, foi mencionada nas entrelinhas com o peso de quem está sendo convidado a deixar de fazer o que quer que esteja fazendo, sob pena de perder acesso ao mercado americano. É uma ameaça real, é uma jogada de poder real, e também é, convenhamos, uma confissão pública de que o instrumento econômico preferido desta administração é o mesmo que um senhor feudal usava ao fechar as porteiras do castelo: você comercia comigo nas minhas condições ou não comercia.

Há uma contradição estrutural que nenhum assessor de imprensa consegue cobrir com retórica suficiente. A tarifa não cai sobre o governo chinês. Não recai sobre os generais do Exército Popular de Libertação. Não retira um centavo do bolso do Politburo. A tarifa, qualquer tarifa, é paga pelo importador americano, repassada ao varejista americano e depositada, no fim da cadeia, no bolso vazio do consumidor americano que queria comprar um produto mais barato. O Estado anuncia que vai punir Pequim e quem sangra é o cidadão de Ohio que comprava eletrônico. Este não é um detalhe técnico menor, é a estrutura do engodo. É o mesmo mecanismo que faz o governo decretar controle de preços e depois se espantar com a escassez, como se a realidade econômica fosse uma opinião que muda de acordo com o decreto.

Dito isso, e dito com clareza para que ninguém acuse esta coluna de ingenuidade internacionalista, o jogo geopolítico que Trump está jogando tem uma lógica própria que não pode ser descartada com um gesto de mão. O Irã com acesso irrestrito a tecnologia militar chinesa é um problema de segurança regional com ramificações que chegam a Israel, ao Golfo Pérsico e, inevitavelmente, aos preços do petróleo que alimentam cada galão bombeado em posto americano. A questão não é se a ameaça faz sentido como peça de tabuleiro, é se o instrumento escolhido é honesto consigo mesmo quanto aos seus custos. Potências que usaram o bloqueio comercial como arma ao longo da história, de Napoleão com o Bloqueio Continental a Wilson com as sanções do pós-guerra, descobriram invariavelmente que a ferramenta machuca com mais precisão quem a empunha do que quem ela mira. Napoleão sufocou os portos britânicos e acabou destruindo a economia francesa por falta de bens importados. A ironia histórica não aprende a ter vergonha.

A China, por sua vez, não é exatamente um parceiro que dobra ao primeiro sopro de ameaça tarifária. Pequim tem reservas em dólares, tem mercado interno em expansão, tem acordos com dezenas de países que precisam dela mais do que ela precisa de qualquer um individualmente. E, o que é mais relevante para o caso em questão, tem uma aliança estratégica com Moscou e Teerã que não nasce de simpatia ideológica, mas de interesse frio e calculado: os três precisam de um contrapeso ao domínio americano, e esse contrapeso se fortalece cada vez que Washington escolhe o garrote econômico como linguagem diplomática primária. Ameaças que não são cumpridas corroem autoridade. Ameaças que são cumpridas e falham corroem autoridade mais ainda. E ameaças que são cumpridas, funcionam no curto prazo e criam ressentimento estrutural de longo prazo, bem, essas são a especialidade da casa imperial desde que impérios existem.

O que Trump está fazendo, com toda a sua capacidade de comprimir posição geopolítica em 280 caracteres, é usar a linguagem da força porque é a linguagem que o mundo entende e que seu eleitorado aprecia. Não há nada necessariamente errado na disposição de falar duro com Pequim sobre armamento iraniano. O erro, o erro reincidente e jamais confessado, é apresentar a tarifa como se fosse um castigo que recai sobre o adversário quando ela é, na anatomia real do sistema econômico, uma taxação doméstica disfarçada de política externa. O americano médio que aplaude a medida pagará por ela no carnê do cartão de crédito antes que qualquer general iraniano perca uma hora de sono. Esta é a magia do Estado moderno: transformar o contribuinte no instrumento da própria punição e fazê-lo aplaudir enquanto assina o cheque.

No fim, o que esta história revela não é a audácia de Trump nem a covardia de Pequim. Revela a natureza do poder estatal quando elevado à condição de árbitro do comércio internacional: ele não tem autocontenção natural, não tem freio institucional genuíno, e avança por inércia até encontrar resistência suficiente para parar. Toda vez que um governo descobre que pode usar o comércio como arma, a tentação de apertar mais um grau é irresistível, porque o custo político imediato parece zero e o custo econômico real aparece depois, difuso, espalhado por milhões de notas fiscais que ninguém lê com atenção suficiente para conectar a causa ao efeito. A conta sempre chega. Nunca endereçada ao remetente.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.