O anúncio veio com a pompa habitual: o presidente norte-americano declarou, em tom de quem fechou negócio de imóvel, que o líder chinês apoia a pressão sobre o Irã para reabrir o Estreito de Ormuz. Repare na cena antes de comprar o enredo. Um corredor marítimo por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial está fechado, e três governos resolvem, em conversa de cúpula, o que vai acontecer com o preço do barril que abastece o caminhão que entrega o pão na sua padaria. Ninguém perguntou ao motorista, ao padeiro, ao consumidor. Perguntaram aos generais, aos diplomatas e aos donos das frotas. O resto da humanidade entra no roteiro como figurante mudo, papel para o qual fomos cuidadosamente treinados.

Vale lembrar a aritmética bruta. Ormuz é uma garganta de água com pouco mais de trinta quilômetros de largura no ponto mais estreito, e por ali escorre o sangue energético da Ásia, da Europa e, indiretamente, do Brasil. Fechar Ormuz é apertar o pescoço da economia global; reabrir Ormuz é afrouxar a mão que aperta. Quem aperta e quem afrouxa, portanto, não está vendendo segurança ao mundo, está vendendo a si mesmo como indispensável. É o velho truque do bombeiro piromaníaco, que ateia o fogo na esquina e cobra pela mangueira. A diferença é que, no caso dos Estados, a mangueira é paga pelo incendiário, pelo bombeiro e pelo dono da casa, todos com o mesmo cartão de crédito chamado imposto e inflação.

Siga o dinheiro e o teatro fica nu. Quem ganha quando Ormuz reabre sob pressão americana com aval chinês? As petroleiras que precisavam destravar contratos travados, as seguradoras marítimas que cobram prêmio de guerra e agora vão recalibrar tabelas, os armadores que voltam a passar pelo caminho curto em vez de contornar a África, e, claro, os governos envolvidos, que extraem dividendos políticos da própria encenação. Quem perde? O contribuinte que financiou a frota que patrulha o golfo, o motorista iraniano que vive sob sanção, e o consumidor brasileiro que vai pagar o repasse no posto, no supermercado e na conta de energia. A regra é antiga e nunca falha: socializam-se os custos da geopolítica, privatizam-se os lucros do arranjo.

Há ainda a comédia da narrativa. Vende-se a história como se um homem ligasse para outro, falasse com um terceiro, e o mundo girasse pela boa vontade de três personalidades fortes. É a versão moderna daquela diplomacia de salão do século dezenove, em que imperadores se reuniam em palácios europeus para redesenhar mapas enquanto camponeses morriam nas trincheiras desenhadas. Hoje o palácio virou hotel, o mapa virou rota de petroleiro, e o camponês virou trabalhador formal que recebe contracheque corroído. A estética mudou, a substância é a mesma: poucos decidem, muitos pagam, e a imprensa oficial chama isso de estadismo.

O detalhe filosófico, que ninguém quer encarar, é que toda essa engenharia depende de uma premissa silenciosa: a de que os Estados envolvidos têm legitimidade para tratar rotas comerciais como propriedade sua. Não têm. O Estreito é água; os navios são privados; o petróleo é vendido por empresas a clientes. O que esses governos fazem é cobrar pedágio por um serviço que jamais prestaram, usando como justificativa a ameaça que eles próprios fabricaram com décadas de sanções, intervenções e financiamento de proxies. Se as premissas são essas, a conclusão é inevitável: o anúncio não é sobre paz, é sobre a divisão de espólio entre quem opera o pedágio. Chame de cooperação internacional se quiser dormir melhor; o nome técnico é cartel.

Então, voltando ao ponto que importa, quem paga e quem recebe? Paga o brasileiro que abastece o carro sem entender por que o preço subiu, paga o iraniano comum esmagado entre o regime dos aiatolás e o cerco de Washington, paga o europeu que vê a conta de aquecimento dobrar no inverno. Recebe o complexo industrial militar de cada lado, recebem as estatais energéticas que jogam nos dois tabuleiros, recebem os intermediários financeiros que cobram pelo risco que eles mesmos precificam. O resto é cenário, fumaça e manchete. Quando três governos anunciam que vão resolver um problema, comece a contar os talheres; alguém vai jantar você.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.