O cenário tem ironia digna de pena ácida. O jantar anual dos correspondentes da Casa Branca, ritual onde a imprensa que jura fiscalizar o poder brinda taças de champanhe com o poder que jura fiscalizar, foi interrompido por tiros. Trump foi cercado por agentes do Serviço Secreto, Melania abaixou a cabeça, jornalistas se atiraram debaixo das mesas como se a redação tivesse virado trincheira, e um oficial caiu ferido. Múltiplas armas, segundo o próprio presidente. Múltiplas falhas, segundo qualquer um que ainda saiba contar.
Vale lembrar a contabilidade do circo. O orçamento anual do Serviço Secreto beira os quatro bilhões de dólares. O Departamento de Segurança Interna, criado no histerismo pós setembro de 2001 com a promessa de transformar o solo americano em fortaleza inviolável, suga mais de cem bilhões por ano do bolso do contribuinte. E mesmo assim, sob holofote, com perímetro montado, varredura prévia, cães farejadores, detectores de metal e uma constelação de agentes de terno preto, alguém entra com arsenal num salão lotado de figurões. Ou a segurança é incompetente, ou a segurança é teatro. Pista: as duas coisas não se excluem.
Toda vez que o Estado falha em sua função declarada, ele é recompensado com mais orçamento. É a lei de bronze da burocracia armada. Depois de Dallas em 1963, o Serviço Secreto cresceu. Depois de Reagan em 1981, cresceu mais. Depois de Butler em 2024, cresceu de novo. Cada bala disparada contra um político vira justificativa contábil para inflar a folha de pagamento dos mesmos que falharam. O fracasso se autofinancia. O contribuinte paga pela proteção que não funciona, e paga de novo pela investigação do porquê não funcionou, e paga uma terceira vez pela reforma estrutural que prometem implantar até o próximo atentado.
Há também a dimensão simbólica que merece bisturi. O jantar dos correspondentes é o auge da promiscuidade entre quarto poder e primeiro poder. Repórteres que deveriam morder os tornozelos do governo posam para selfies com porta vozes do Pentágono enquanto comem filé mignon pago por anunciantes que vendem caças e medicamentos. A mesma imprensa que se acovardou debaixo das mesas é a que, na semana seguinte, vai escrever editoriais clamando por mais vigilância, mais monitoramento, mais restrição ao porte de armas para o cidadão comum, mais poder para o aparato que, lembremos, falhou em proteger o próprio jantar dela.
E a indústria do medo já esfrega as mãos. Ações de empresas de segurança privada sobem na segunda. Lobbies de tecnologia de vigilância facial preparam apresentações no Congresso. Fabricantes de detectores e sistemas biométricos agendam jantares discretos com assessores parlamentares. Cada tiro disparado em solo americano é convertido em contrato bilionário antes mesmo do sangue secar no tapete. A tragédia individual do oficial baleado, homem de carne e osso com família e contas a pagar, vira insumo de planilha trimestral em escritórios de Manhattan. Ele sangrou. Outros lucram.
O cidadão comum, esse personagem esquecido em toda análise oficial, sai do episódio com menos liberdade e mais imposto. Vai engolir novas camadas de revista em aeroportos, novos protocolos em eventos públicos, novas justificativas para câmeras em cada esquina, e vai pagar por tudo isso achando que está comprando segurança. Não está. Está comprando a ilusão de segurança, embrulhada em papel de presente pelo mesmo Estado que não conseguiu impedir um atirador de entrar num salão fechado cercado de policiais. A bala que feriu o agente vai cobrar pedágio de gente que nunca chegou perto de Washington.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.