O roteiro foi cumprido com a precisão de um balé ensaiado: dois dias em solo chinês, tapete vermelho, banquete de Estado, fotos de aperto de mão calibrado em milímetros e, no fim, o convite ritual para uma visita em setembro. A imprensa global, treinada para confundir cerimônia com substância, vendeu o espetáculo como degelo histórico. Na prática, o que se viu foi o encontro de dois oligopólios estatais negociando fatias de um mercado que nenhum dos dois produziu, apenas confiscou via tarifas, subsídios e decretos. Cordialidade entre imperadores nunca foi paz; foi sempre divisão de espólio.
Vale olhar o que estava de fato em jogo enquanto as taças tilintavam. Terras raras, semicondutores, soja, fentanil, Taiwan, tarifas recíprocas e a coreografia delicada do dólar diante do yuan digital. Cada um desses itens move centenas de bilhões e alimenta um ecossistema de contratistas, lobistas e fundos soberanos que jamais aparecem na foto oficial. O fabricante americano de chips que recebe subsídio bilionário para "segurança nacional" brinda em silêncio. O conglomerado estatal chinês que controla o refino de neodímio também. Os dois governos saem fortalecidos, os dois complexos industriais saem mais ricos, e em algum lugar do interior de Ohio ou de Anhui um pequeno produtor descobre que sua margem virou pó por decreto alheio.
A retórica da "competição estratégica" cumpre função idêntica à da antiga "ameaça soviética" e, antes dela, do "perigo amarelo" do começo do século vinte: justificar orçamentos militares que crescem em ritmo geométrico enquanto escolas, estradas e hospitais definham em ritmo aritmético. Toda vez que dois chefes de Estado se abraçam em público, três coisas acontecem nos bastidores: encomendas de armamentos sobem, programas de vigilância são renovados, e o contribuinte ganha mais um imposto disfarçado de tarifa, mais uma inflação disfarçada de emissão. Quem comprou ações do complexo bélico nos últimos cinco anos sabe exatamente do que estou falando. Quem comprou pão também, embora por motivos opostos.
A diplomacia entre Washington e Pequim sempre teve essa qualidade pendular: hoje rivais existenciais, amanhã sócios indispensáveis, depois de amanhã rivais novamente. O que permanece constante, década após década, é o fluxo de capital, o roteiro do endividamento mútuo e o uso recíproco do outro como bode expiatório doméstico. Pequim precisa do inimigo externo para silenciar dissidência interna; Washington precisa do rival sistêmico para justificar gastos que nenhum eleitor aprovaria em voto direto. É um casamento de conveniência tão antigo quanto a república veneziana negociando com o sultão enquanto pregava cruzada. Inimigos públicos, sócios privados.
O convite para setembro não é gesto de boa vontade, é prorrogação de contrato. Significa que ainda há fatias do bolo a serem distribuídas, que a guerra comercial será dosada para não quebrar de vez as cadeias produtivas que enriquecem os dois lados, e que o conflito por Taiwan continuará suspenso no estado quântico mais lucrativo possível: nem paz, nem guerra, apenas tensão calibrada que sustenta orçamentos de defesa em ambas as capitais. Empresários de Xangai e de Houston suspiram aliviados. Generais também. Lobistas mais ainda. O cidadão comum, esse, recebe a notícia pela televisão e volta a trabalhar para pagar a fatura que nem sabe que assinou.
No fundo, o teatro de Pequim repete uma lição que a história já gravou em pedra mil vezes e que nenhuma geração quer aprender: quando dois leviatãs sorriem um para o outro, há um rebanho sendo dividido em algum lugar. A pergunta nunca foi se haverá acordo ou ruptura entre as potências. A pergunta sempre foi quem vai pagar pela próxima rodada, seja ela amistosa ou belicosa. E a resposta, em qualquer cenário, segue escrita no contracheque de quem nunca foi consultado.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.