A fotografia de Nova Delhi vale mais que dez comunicados diplomáticos. O líder chinês, o czar russo e o primeiro-ministro indiano posam juntos enquanto o inquilino da Casa Branca dispara tarifas contra meio planeta e chama isso de política externa. O detalhe que os analistas de gravata evitam mencionar é banal: cada sanção decretada em Washington funciona como corretor de imóveis para Pequim, cada bloqueio financeiro assinado no Tesouro americano vende passagem de primeira classe para o rublo digital, e cada bomba jogada sobre o Irã transforma o petróleo em argumento geopolítico contra quem a lançou. O império que se pretende hegemônico está pagando, com o dinheiro do contribuinte de Ohio, o marketing de sua própria substituição.

Convém lembrar que essa dança já foi ensaiada antes. Toda potência dominante, do império espanhol do século dezesseis ao britânico do dezenove, entrou em colapso não por invasão estrangeira, mas por excesso de arrogância monetária combinada com aventuras militares impagáveis. Filipe segundo quebrou quatro vezes financiando guerras religiosas na Europa. Londres perdeu o século vinte tentando manter a libra como reserva mundial enquanto bombardeava colônias que não podia mais sustentar. Washington repete o roteiro com a precisão de um ator decorando marcações: imprime dólar para financiar Kiev, imprime dólar para financiar Tel Aviv, imprime dólar para financiar bases em cento e trinta países, e depois se assusta quando indianos, chineses e russos decidem negociar petróleo em suas próprias moedas. Não é traição. É contabilidade.

Siga o dinheiro e a paisagem se ilumina. Quem lucra com o tarifaço americano? Os mesmos conglomerados que financiaram a campanha, protegidos da concorrência estrangeira por decreto presidencial, enquanto o consumidor médio paga trinta por cento a mais no eletrodoméstico, no calçado, no medicamento. Quem lucra com a guerra prolongada no Irã? Os fabricantes de mísseis interceptadores, cujas ações subiram dois dígitos desde o primeiro ataque, e os intermediários de reconstrução que já circulam por Amã e Dubai com contratos preliminares no bolso. Quem paga? O soldado que perdeu as pernas em uma operação secreta que o Congresso jamais autorizou formalmente, o pequeno importador brasileiro que descobriu que sua carga está sob nova alíquota retroativa, o iraniano comum que não consegue mais comprar insulina porque o banco correspondente foi expulso do sistema Swift.

Modi entendeu o recado antes de todos. A Índia comprou petróleo russo com desconto de trinta por cento durante três anos consecutivos, revendeu refinado para a própria Europa que fingia embargo, e ainda foi tratada como parceira estratégica em Washington. Agora que o tarifaço encostou em Nova Delhi, o mesmo Modi que sorria para fotos no Salão Oval aparece de braços dados com Xi Jinping em pose que teria sido impensável há dois anos. Não há conversão ideológica. Há aritmética. Quando o parceiro comercial vira credor hostil, o devedor procura outro banco. Pequim oferece infraestrutura sem sermão sobre direitos humanos, Moscou oferece energia sem condicionalidade eleitoral, e o BRICS deixa de ser sigla acadêmica para virar sala de reunião com ata assinada.

O paradoxo que ninguém em Foggy Bottom quer encarar é que a suposta política de força está produzindo, em tempo real, exatamente aquilo que pretendia impedir. Cada sanção secundária empurra um país neutro para os braços do adversário. Cada tarifa punitiva ensina governos que a moeda de reserva pode ser confiscada por decreto, e portanto precisa ser diversificada. Cada bombardeio unilateral demonstra que o direito internacional é aplicável apenas contra os fracos, o que autoriza os fortes a construírem sua própria ordem paralela. A hegemonia americana não está sendo derrotada por Xi ou Putin. Está sendo demolida por seus próprios engenheiros, com dinamite carimbada em Washington.

Enquanto isso, o cidadão comum, aquele que nunca pediu para ser imperador e nunca lucrou um centavo com o complexo militar, continua bancando a conta. O americano paga na inflação, o europeu paga no aquecimento, o iraniano paga na fome, o brasileiro paga na tarifa portuária, o indiano paga na volatilidade cambial. Os únicos que não pagam são os que decidem. E é sempre assim que os impérios acabam: não com um estrondo diplomático, mas com uma silenciosa transferência de contas bancárias para outra praça financeira, enquanto os discursos oficiais continuam falando em liderança global.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.