A cena beira o burlesco. Um presidente sobe ao palanque jurando que o acordo anterior era o pior negócio já assinado por mãos humanas, promete arrancá-lo pela raiz, convoca porta-aviões, mobiliza o Pentágono, autoriza ataques, celebra baixas, contabiliza vitórias e, ao final da temporada, apresenta triunfalmente um documento que, lido ao lado do antigo, difere apenas no timbre e na tipografia. Limites de enriquecimento semelhantes, inspeções semelhantes, cláusulas de expiração semelhantes, promessas semelhantes. Mudou o nome na capa. O resto é fotocópia com cheiro de pólvora. E entre um contrato e outro, milhares de civis viraram estatística, a economia global levou um soco no estômago que ainda reverbera em prateleiras vazias de Buenos Aires a Jacarta, e o preço do barril dançou conforme a batuta de quem sabia quando comprar antes do próximo discurso.

A pergunta incômoda, aquela que nenhum comentarista de televisão a cabo formula porque prefere o cachê previsível da indignação pré-fabricada, é simples e brutal. Se o acordo final é quase idêntico ao que foi demolido, qual era o problema do primeiro? Se o problema era real, por que o novo o reproduz? E se não era, em nome de quê se matou? As respostas ficam paradas no ar, desconfortáveis, porque desmontam o teatro inteiro. A verdade é que a retórica belicista nunca foi sobre prevenir bombas iranianas. Foi sobre manter ligados os tornos das fábricas de mísseis em Lockheed, Raytheon, General Dynamics e Boeing, cujos acionistas aplaudem de pé toda vez que um coronel aposentado aparece na CNN gritando que é hora de agir. Agir, no dicionário deles, significa encomendar.

Siga o trajeto do dinheiro e o enredo se ilumina. Orçamentos de defesa inflados com a desculpa da ameaça persa, pacotes suplementares aprovados no Congresso enquanto hospitais fechavam por falta de verba, bases americanas expandidas no Golfo com o dinheiro do contribuinte que já não consegue pagar a hipoteca, contratos bilionários de reposição de munição gasta em campanhas que o próprio Pentágono admite terem produzido efeito militar marginal. Enquanto o fazendeiro do Texas vê o diesel subir porque o Estreito de Ormuz ficou nervoso, o executivo de Arlington vê as opções de ações engordarem porque o estreito ficou nervoso. É o mesmo estreito, é o mesmo nervosismo, é a mesma guerra. Muda apenas o lado da mesa em que você está sentado.

A história oferece o espelho, basta ter coragem de olhar. Cada geração descobre um novo inimigo existencial, cada inimigo justifica um novo ciclo de gastos, cada ciclo termina em acordo parecido com o anterior, e a fatura é sempre terceirizada para o filho do padeiro que morreu em terra estrangeira e para o poupador doméstico que vê a inflação devorar suas economias porque alguém imprimiu trilhões para financiar o festival. Vietnã, Iraque, Líbia, Afeganistão, Síria, e agora mais um capítulo no golfo pérsico. Os nomes mudam, os mapas mudam, as bandeiras mudam. O padrão é litúrgico. Manufatura-se o medo, vende-se a solução, coleta-se o pagamento, reescreve-se o acordo que havia sido rasgado, e começa-se a preparar o próximo vilão para a próxima temporada.

E do lado de lá, no país sancionado, o cidadão comum que jamais decidiu política nuclear alguma viu o remédio triplicar de preço, a poupança virar pó e o filho adolescente ser recrutado para defender um regime que o despreza. Do lado de cá, o trabalhador americano viu o tanque de gasolina custar o almoço e seu salário real encolher porque a máquina de guerra precisa ser alimentada com algo, e esse algo é sempre o bolso de quem não tem lobby em Washington. Sanções não matam ditadores. Matam padeiros, professoras, crianças com leucemia que precisavam de quimioterápicos importados. Bombas não democratizam. Pulverizam casas, escolas, famílias inteiras em estatísticas que o noticiário chama eufemisticamente de dano colateral, como se o dano fosse um acidente de percurso e não o produto industrial principal.

Restará, quando a poeira assentar, a mesma pergunta que jamais recebe resposta em coletiva de imprensa. Qual foi exatamente o ponto de matar milhares e estremecer a economia mundial para assinar quase o mesmo papel de antes? O ponto, caro leitor, nunca foi o papel. O papel é apenas o recibo formal de uma transação que já havia sido liquidada nos salões de Wall Street, nos corredores do Capitólio e nas salas de reunião da indústria bélica muito antes do primeiro míssil cruzar o céu. O sangue era o combustível, não o acidente. E o contribuinte, esse eterno idiota útil, continua assinando o cheque achando que está comprando segurança quando na verdade está subsidiando o dividendo alheio.

Com informações da Reason. A análise e opinião são do O Algoz.