O corregedor-geral da Justiça Eleitoral acolheu, com a solenidade de quem assina tratado de paz, uma petição pedindo que se investigue a participação do presidente da República num desfile de escola de samba. Traduzindo do juridiquês para o português dos mortais: um senador acha que sair na avenida com a comunidade que ergueu a agremiação configura abuso de poder político, e um ministro concordou que a hipótese merece toda a pompa de um processo formal. O carnaval, aquela festa que já foi válvula de escape do povo contra a dureza do cotidiano, virou objeto de perícia togada. Falta pouco para o corregedor pedir vista do figurino da porta-bandeira.
Convém olhar para o balcão antes de olhar para o palco. Quem paga essa brincadeira toda? O mesmo sujeito de sempre, o pagador de impostos, que sustenta a estrutura faraônica da Justiça Eleitoral, sustenta o gabinete do senador, sustenta o staff presidencial que carrega a água mineral do chefe e, de quebra, sustenta indiretamente a escola de samba via renúncia fiscal, patrocínio de estatal e verba de secretaria de cultura. Quem recebe? Os advogados que vão empilhar petições, os assessores que vão redigir notas, os comentaristas que vão comentar as notas, e a própria classe política, que descobriu no espetáculo judicial um novo tipo de horário eleitoral gratuito, só que pago pelo povo e sem limite de tempo.
Há uma lógica de ferro por baixo do samba. Se a premissa é que aparecer em evento popular caracteriza abuso, então toda inauguração de posto de saúde, toda visita a obra pública, toda selfie em porta de padaria vira ilícito eleitoral em potencial. Se a premissa é falsa, então o pedido é peça de teatro para queimar a imagem do adversário usando dinheiro público como lenha. Nas duas hipóteses o cidadão perde: ou aceita que qualquer gesto vira crime, ou aceita que o aparato do Estado seja usado como estilingue partidário. Não existe terceira porta, por mais que os intérpretes profissionais do óbvio queiram vender uma.
Julgue pelo que se faz, não pelo que se diz. O que se diz é que a Justiça Eleitoral protege a lisura do pleito. O que se faz é abrir apuração sobre marchinha de escola de samba enquanto urna, financiamento de campanha, caixa dois e uso de máquina pública em ano não eleitoral seguem tratados com a mesma displicência de sempre. É o Estado brasileiro em estado puro: rigoroso com a filigrana, tolerante com a viga mestra. Enxerga chifre em cabeça de destaque de bateria e finge não ver o elefante que atravessa a sala carregando maleta.
Há algo mais antigo aqui, um vício que atravessa séculos. Sempre que o poder se aborrece com o riso do povo, tenta domesticá-lo. Roma proibia sátira, absolutismo censurava carnaval, ditadura pedia autorização para bloco de rua. Agora a novidade é a censura por procuração, disfarçada de zelo institucional, terceirizada para um ministro que carimba, um senador que provoca e uma imprensa que finge levar a sério. O sambódromo, que sempre foi o lugar onde o brasileiro riu do próprio infortúnio, agora precisa de parecer técnico para saber se pode continuar rindo. A avenida abre, mas com pauta.
No fim, sobra a conta e sobra a moral da história. A conta chega em forma de imposto, inflação e tempo perdido ouvindo autoridade explicar por que carnaval é ameaça à democracia. A moral é ainda mais amarga: um país que transforma desfile em processo é um país que já perdeu a noção do que é grave e do que é frívolo, do que é público e do que é privado, do que é festa e do que é política. Enquanto o cidadão paga a fatura, os figurinos do poder ficam cada vez mais caros, e o samba, esse coitado, vira só mais um pretexto para justificar a existência de quem vive de vigiar os outros. Quem paga já sabemos. Quem recebe, também. O resto é confete.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.