A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company acaba de cravar mais um trimestre de lucro recorde, com alta de 58% sobre o mesmo período do ano anterior, superando todas as estimativas dos analistas de Wall Street. A empresa, que fabrica os chips mais avançados do planeta para Apple, Nvidia e praticamente toda a indústria de inteligência artificial, se consolidou como a artéria central de uma economia global cada vez mais dependente de semicondutores. Os números são obscenos, e a palavra "recorde" já perdeu o significado de tão repetida. Mas antes de aplaudir o milagre taiwanês, convém perguntar algo que nenhum relatório trimestral responde: por que esse lucro existe nessa magnitude, e de onde, exatamente, vem o dinheiro que o sustenta?
A resposta está escondida à vista de todos. Os maiores clientes da TSMC não são empresas que vendem produtos a consumidores dispostos a pagar com seu próprio dinheiro. São corporações que dependem, em proporções variadas, de contratos governamentais, subsídios estatais e incentivos fiscais bilionários. O CHIPS Act americano despejou 52 bilhões de dólares do contribuinte para "garantir a soberania" dos semicondutores. A União Europeia aprovou seu próprio pacote de 43 bilhões de euros com o mesmo pretexto. O Japão, a Coreia do Sul, a própria Taiwan, todos entraram na dança. A inteligência artificial, que supostamente justifica esses lucros estratosféricos, é financiada em larga medida por dinheiro público repassado a empresas privadas sob o disfarce de "segurança nacional" e "competitividade tecnológica". O contribuinte americano, europeu e asiático financia a pesquisa, subsidia a fábrica, garante o contrato, e no final do trimestre, o lucro aparece no balanço da TSMC como se fosse puro mérito de mercado. É o modelo mais antigo do capitalismo de compadrio: socializar o custo, privatizar o ganho.
Há ainda a dimensão geopolítica, que transforma cada wafer de silício em peça de tabuleiro. Taiwan não é protegida pelos Estados Unidos por simpatia democrática ou solidariedade entre povos livres. Taiwan é protegida porque a TSMC fabrica mais de 90% dos chips avançados do mundo, e quem controla a produção de chips controla a economia do século XXI. Os porta-aviões no Estreito de Taiwan não estão ali para defender a liberdade dos taiwaneses, estão ali para defender a cadeia de suprimentos da Nvidia e da Apple. Se amanhã a TSMC se mudasse inteira para o Kansas, o entusiasmo americano pela soberania taiwanesa evaporaria com a mesma velocidade com que desapareceu o interesse pela soberania do Afeganistão quando os contratos de reconstrução secaram. A geopolítica dos semicondutores é a geopolítica do petróleo com outro nome: quem tem o recurso é aliado, quem não tem é alvo.
O mais revelador nessa história é o que se esconde por trás da palavra "demanda". Quando a TSMC diz que a "demanda por IA continua crescendo", o que ela realmente diz é que governos e corporações continuam despejando dinheiro em data centers colossais, consumindo energia equivalente a países inteiros, para treinar modelos que, em sua maioria, ainda não provaram retorno econômico real para quem os utiliza. A bolha das pontocom estourou quando ficou claro que tráfego não era receita. A bolha da IA estourará quando ficar claro que capacidade computacional não é produtividade. Mas até lá, a TSMC continuará registrando lucros recordes, porque em toda corrida do ouro quem enriquece de verdade não é quem cava, é quem vende a pá. E quando a febre passa, o vendedor de pás já embolsou o dele.
Ninguém questiona o mérito técnico da TSMC, que é genuíno e impressionante. A empresa domina um processo de fabricação que pouquíssimas organizações no planeta conseguem replicar. Mas mérito técnico e lucro recorde são coisas distintas, e a distância entre um e outro é preenchida por subsídios, contratos garantidos, tensão geopolítica manufaturada e uma corrida armamentista tecnológica na qual cada governo tenta superar o outro usando o dinheiro de cidadãos que jamais foram consultados. O trabalhador médio de Ohio, cuja fábrica fechou há vinte anos, agora financia com seus impostos a construção de uma planta da TSMC no Arizona, para produzir chips que ele não pode comprar, para dispositivos que ele não pode pagar, gerando lucros que ele jamais verá. O trimestre é recorde. A pergunta é: recorde para quem?
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.