Morreu Kyle Busch, quarenta e um anos, dois títulos da Cup Series, vinte e duas temporadas queimando pneu para alimentar um dos espetáculos mais lucrativos do esporte americano. A nota oficial fala em doença grave, eufemismo corporativo que serve para qualquer coisa entre um câncer fulminante e um colapso silencioso do corpo de um homem que passou metade da vida adulta exposto a vibração extrema, calor de forno, monóxido de carbono e a pressão psicológica de quem precisa terminar em primeiro para justificar os milhões investidos pelos patrocinadores estampados no macacão. A NASCAR emitiu condolências em letra garrafal, baixou a bandeira a meio mastro e, no parágrafo seguinte, confirmou que a corrida do próximo domingo está mantida. O show, como sempre, continua.

Convém lembrar que a NASCAR não é um clube de entusiastas de automóveis. É uma máquina de pelo menos oito bilhões de dólares em receita anual quando se somam direitos de transmissão, licenciamento, patrocínios, ingressos e o ecossistema parasitário de apostas esportivas que floresceu desde que o jogo foi legalizado em escala federal. Cada piloto é, em essência, um ativo humano embrulhado em logotipos de cerveja, seguradoras, fast food, refinarias e empresas de telefonia. O corpo do atleta é o suporte físico onde a marca se imprime, e quando esse suporte falha, o departamento de marketing já tem dois ou três substitutos em testes nos circuitos secundários. Busch foi, durante anos, um dos maiores garotos-propaganda do circuito. Agora vira retrospectiva emocionada de quatro minutos antes da largada.

Ninguém vai investigar publicamente o que matou aquele homem. Não interessa. Investigar exigiria perguntar quantas horas semanais um piloto de elite passa exposto a níveis de stress fisiológico que nenhum estudo longitudinal sério acompanhou, exigiria abrir o histórico médico que está trancado em escritórios de advogados contratados pelas equipes, exigiria perguntar por que tantos pilotos morrem antes dos sessenta de causas convenientemente vagas. A indústria gosta de doença grave como gosta de acidente trágico, são categorias amplas o suficiente para não comprometer contrato nenhum, não acionar seguro contra a entidade organizadora, não criar precedente jurídico para que famílias futuras processem o cartel pela exposição ocupacional de seus filhos.

É a velha equação dos espetáculos populares desde que os romanos descobriram que multidão entretida não derruba César. O gladiador morria na areia, a plateia chorava, o senador anotava o lucro da bilheteria e contratava o próximo escravo balcânico para substituí-lo na semana seguinte. Mudaram o tecido do uniforme, trocaram a espada pelo volante, substituíram a areia pelo asfalto, mas a aritmética permaneceu intacta. O herói existe enquanto serve ao caixa. Quando deixa de servir, vira estátua, vira nome de troféu, vira documentário póstumo na plataforma de streaming que, por coincidência, pertence ao mesmo conglomerado que detém os direitos de transmissão da liga.

Restam a viúva, o filho ainda criança, os companheiros de equipe que vão correr no domingo porque o contrato manda, e o contribuinte americano que talvez nem saiba que parte das pistas onde Busch correu foi construída ou reformada com isenções fiscais municipais, financiamento subsidiado de aeroportos regionais que servem aos jatinhos das equipes e renúncias de receita justificadas pelo argumento sagrado de que esporte gera emprego. Gera. Gera emprego para advogados de patrocínio, executivos de mídia e funerárias contratadas a preço de luxo quando o ídolo vai embora cedo demais.

Quarenta e um anos. Idade em que um homem comum ainda discute com o filho sobre lição de casa. Naquele mundo, é idade em que o corpo já entregou tudo que tinha para entregar e a planilha do departamento financeiro registra a baixa do ativo sem nenhuma emoção. O público chora. O acionista calcula. E o próximo garoto talentoso de vinte e dois anos, já assinado por alguma equipe regional, sorri para a câmera sem entender ainda que acaba de receber, junto com o contrato, uma data de validade que ninguém lhe mostrou.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.