A polícia metropolitana de Londres investiga uma série de ataques incendiários contra alvos judaicos, supostamente orquestrados por um grupo ligado a Teerã, enquanto o rabino-chefe britânico denuncia uma campanha sustentada de violência e intimidação. A cena tem ares de novidade jornalística, mas é tão antiga quanto o próprio hábito britânico de gerenciar impérios distantes e importar, de bandeja, as rivalidades que ajudou a inflamar. O Reino Unido passou o século vinte redesenhando o Oriente Médio com régua e compasso coloniais, prometendo a mesma terra a povos diferentes, e agora estranha que as brasas dessa engenharia cheguem, décadas depois, aos subúrbios de sua capital.

A narrativa oficial é impecavelmente conveniente: o inimigo é externo, o culpado usa turbante, e a solução passa por mais orçamento para vigilância, mais poder para o Home Office, mais dinheiro público para contratos de segurança privada que já engordaram com cada pânico terrorista desde 2001. Siga o rastro. Cada sinagoga queimada vira argumento para pacotes de bilhões em infraestrutura de monitoramento, para câmeras com reconhecimento facial que, curiosamente, acabam apontadas também contra manifestantes, sindicalistas e qualquer cidadão que ouse incomodar o governo da vez. O terror importado é o melhor lobista que a indústria de segurança doméstica poderia contratar, e não cobra honorários.

Há também o detalhe inconveniente que ninguém em Westminster quer discutir: a fatura da política externa britânica nunca é paga por quem a assina. Londres patrocinou sanções, aplaudiu bombardeios, vendeu armas para regimes escolhidos a dedo na região, e o cidadão comum, aquele que paga o council tax e nunca decidiu nada sobre o Levante, agora descobre que sua rua virou palco de uma disputa entre chancelarias. O imposto financia o cerco econômico lá fora, e o mesmo contribuinte paga, novamente, pela polícia que deveria proteger seu bairro aqui dentro. Pagar duas vezes pela mesma guerra é o privilégio do súdito moderno.

Teerã, por sua vez, joga o xadrez que aprendeu observando os próprios ingleses: se não pode responder na fronteira, responde na diáspora, na retaguarda, no subsolo das capitais ocidentais. Chamam isso de guerra assimétrica quando o adversário faz, e de projeção de poder quando são eles que fazem. Bloqueios, embargos e congelamento de ativos são atos de guerra que ninguém declara, mas que produzem resposta inevitável, e a resposta raramente atinge os responsáveis originais; atinge o comerciante judeu de Golders Green, o pedestre no ponto de ônibus, a família que só queria dormir em paz. É sempre assim. O Estado decide a guerra, o indivíduo sangra a conta.

O mais grotesco é a coreografia política que se seguirá. Parlamentares farão discursos inflamados, jornais pedirão leis emergenciais, a comunidade judaica receberá promessas solenes, e daqui a seis meses descobriremos que o orçamento aprovado foi usado para comprar software israelense de espionagem, que será então vendido, com lucro, para regimes autoritários do Golfo que, por sua vez, financiam as mesmas milícias que atacam sinagogas em Londres. O círculo se fecha, o caixa se enche, e o trouxa continua sendo o mesmo de sempre: o pagador de impostos que nunca foi consultado sobre nada.

Proteger judeus britânicos de ataques covardes é dever civilizatório elementar, disso não se abre mão. Mas proteger de verdade exige coragem para admitir que o problema não nasceu na semana passada, nem na fronteira iraniana, e sim na arrogância secular de capitais que brincam de redesenhar o mundo e depois se escondem atrás do cidadão quando a conta chega. Quem semeia intervenção colhe retaliação, e a retaliação, como sempre, é cobrada do inocente.

Com informações da Fox News World. A análise e opinião são do O Algoz.