O FTSE 100 vinha numa dança rara, superando o S&P 500 com uma folga que não se via há mais de uma década, alimentado por gigantes do petróleo, bancos comerciais entediantes e mineradoras que cavam buraco em continente alheio. Foi bastar o conflito com o Irã esticar para além da semana prevista pelos generais de poltrona para que o mesmo índice começasse a balançar como bêbado na saída do pub. A narrativa oficial diz que é incerteza geopolítica. A tradução honesta é mais simples, as ações que sobem quando o ocidente bombardeia alguém são exatamente as mesmas que despencam quando o bombardeado resolve revidar de verdade.
Olhe para a composição do FTSE e entenda por que Londres virou refém de Teerã sem nunca ter pedido para entrar na guerra. Shell e BP respondem por fatia gorda do índice, os bancos têm exposição direta ao comércio de commodities, as seguradoras precificam frete marítimo que agora atravessa zona de tiro. Quando o preço do barril sobe por medo, o acionista brinda. Quando sobe porque navios estão sendo detidos no Estreito de Ormuz, o mesmo acionista descobre que existe uma linha tênue entre lucro extraordinário e colapso de cadeia de suprimentos. A bolsa londrina não é uma aposta no Reino Unido, é uma aposta enviesada no caos controlado do Oriente Médio, e caos, como todo general aprende tarde, raramente aceita ser controlado.
O roteiro é antigo e repetido com a paciência de quem sabe que o público tem memória curta. Em 1956, foi Suez, e o império britânico descobriu humilhado que não mandava mais no próprio canal. Em 1973, foi o embargo árabe, e as filas de gasolina em Londres ensinaram que soberania energética não se compra em discurso. Em 1990, foi o Kuwait, e o contribuinte ocidental pagou a festa enquanto Halliburton e congêneres faturavam a reconstrução. Agora é o Irã, e o script é idêntico, só mudaram os nomes dos lobistas no corredor de Westminster e os logotipos nas apresentações do Pentágono. A cada ciclo, a mesma promessa de operação cirúrgica, a cada ciclo, a mesma conta chegando no bolso do pensionista que achava que seu fundo estava diversificado.
Repare em quem está comprando volatilidade como se fosse brinquedo. Os fabricantes de armas listados no índice aeroespacial europeu já precificaram anos de pedidos futuros. As tradings de energia em Genebra e Cingapura ganham rodada dupla, tanto na alta quanto na queda, porque é o movimento, e não a direção, que alimenta a comissão. Os grandes bancos americanos e britânicos reestruturam dívida de países aliados que precisarão de pacotes emergenciais assim que o dólar do petróleo começar a escassear. Nenhuma dessas mesas de operação vota, nenhuma comparece a funeral de soldado, nenhuma aparece em conferência de imprensa. Elas simplesmente cobram a fatura em silêncio, trimestre após trimestre, enquanto o jornal da noite discute se o Estreito vai ou não fechar.
Enquanto isso, o sujeito comum, aquele que abre o aplicativo do banco no metrô de Londres e vê seu ISA encolher quinze por cento em duas semanas, recebe a explicação pedagógica de que mercados oscilam. Não oscilam, são movidos por decisões tomadas em salas onde ele jamais entrará, por homens cujos nomes ele jamais saberá, em guerras que ele jamais aprovou em plebiscito algum. O comerciante iraniano que perde o estoque num bombardeio e o aposentado britânico que perde a renda num circuit breaker são vítimas da mesma engrenagem, operada pelos mesmos dedos, só que um sangra em tempo real e o outro sangra em extratos mensais. A diferença entre ser bombardeado e ser arruinado financeiramente é apenas o endereço do CEP.
A pergunta que ninguém faz na CNBC, porque pagaria caro em audiência, é elementar. Por que um país europeu, que não tem fronteira com o Golfo Pérsico, que não depende diretamente do petróleo iraniano, que deveria estar cuidando de sua própria indústria moribunda, tem sua principal bolsa dançando conforme a música dos mísseis alheios? A resposta incomoda, porque expõe o fato de que soberania econômica foi terceirizada há décadas em troca de rendimentos fáceis, e que a City de Londres só continua sendo a City enquanto o império informal americano garantir que os navios passem. No dia em que não passarem, descobriremos que o FTSE nunca foi britânico, era apenas uma filial bem decorada de um arranjo que só funciona sob a pólvora de outros.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.