Há uma distinção que o senso comum ignora e que Aristóteles, lá no quarto século antes de Cristo, já havia formalizado com a clareza que só a mente grega era capaz de produzir: a diferença entre a corrupção que destrói a forma e a corrupção que preserva a forma enquanto esvazia o conteúdo. A primeira é dramática, visível, gera manchete e comoção. A segunda é silenciosa, metódica, e infinitamente mais perigosa , porque ela se alimenta da aparência de normalidade como condição de sobrevivência. A Revista Oeste tocou nessa ferida ao descrever o que chama de "um pé de frutas podres": instituições brasileiras que não colapsam porque o colapso exige honestidade, e honestidade é exatamente o ingrediente que falta no cardápio do poder nacional.
Peguem o silogismo e levem a sério. Se uma instituição serve à sociedade, ela tem de ser avaliada pelos resultados que produz para a sociedade. Se os resultados que ela produz são sistematicamente favoráveis à classe que a controla e sistematicamente desfavoráveis àqueles que a financiam, então ela não é uma instituição pública , é uma operação privada de extração disfarçada de serviço público. Rothbard chamava isso pelo nome correto: roubo institucionalizado. O Estado não é o bem comum em ação; é, na formulação lapidar de Franz Oppenheimer que Rothbard adorava citar, a organização dos meios políticos de sobrevivência , em oposição aos meios econômicos, que dependem de produção e troca voluntária. O Brasil que o cidadão vê no noticiário não é uma democracia em crise; é um aparato de extração em pleno funcionamento, operando dentro das especificações do projeto original.
Mas voltemos ao fruto podre, porque a metáfora merece ser levada às últimas consequências. O fruto podre que cai da árvore é um problema resolvido: cai, se decompõe, fertiliza o solo, a vida segue. O fruto podre que não cai , que fica pendurado, murchando por dentro, com a casca intacta e o interior fermentado , esse contamina os frutos sadios ao redor e dá à árvore a falsa aparência de produtividade. Santo Agostinho, ao descrever Roma em declínio, usaria uma imagem similar para a alma corrompida que mantém os ritos exteriores da virtude: a forma da piedade sem a substância. Roma não colapsou da noite para o dia. Roma foi sendo esvaziada por dentro durante séculos, com os senadores continuando a usar togas, os cônsules continuando a ser eleitos, os templos continuando a receber sacrifícios , enquanto o poder real migrava para outros endereços, outras mãos, outros interesses. O Brasil luloalexandrino é Roma depois de Cômodo: o espetáculo prossegue, o circo está aberto, e o trigo está sendo distribuído , com dinheiro que não existe, para comprar votos que não merecem ser comprados.
Sigamos a trilha do dinheiro, que é onde Rothbard sempre mandava olhar quando a retórica oficial ficava espessa demais. O Estado brasileiro consome algo entre 36% e 40% do PIB nacional em impostos, contribuições, taxas e outras formas criativas de denominar o mesmo ato de tirar dinheiro do bolso de quem trabalhou para colocá-lo no bolso de quem governa. Desse montante, uma fatia estratosférica vai para o funcionalismo, para os fundos partidários, para as emendas parlamentares, para as estatais ineficientes, para os contratos superfaturados, para os subsídios às empresas "amigas da nação" , que são sempre as mesmas, independentemente de qual partido esteja na presidência. Hayek demonstrou que o planejamento central não falha por falta de intenção; falha por excesso de informação que nenhum planejador pode processar. Mas no Brasil o planejamento central não é sequer um projeto sério de coordenação econômica , é um mecanismo de distribuição de favores para uma rede de clientes políticos, com teoria econômica keynesiana servindo de decoração intelectual para o que é, em essência, trocas de lealdade mediadas por dinheiro público.
Tocqueville advertiu que a tirania democrática moderna não seria a tirania dos déspotas antigos , brutal, visível, impossível de ignorar. Seria uma tirania suave, administrada, que "não quebra as vontades, mas as amolece, as curva e as dirige", que "não tiraniza, mas impede, constrange, embota, asfixia e embrutece" , até que cada nação se reduza a "um rebanho de animais tímidos e industriosos, do qual o governo é o pastor". Leiamos o Brasil com esses olhos. O cidadão brasileiro não vive sob um regime que o proíbe de falar , vive sob um regime que o afoga em burocracia até que falar se torne inútil; que o taxa até que prosperar se torne exceção; que o educa em escolas que não ensinam; que o trata em hospitais que não curam; e que, quando ele reclama, mostra-lhe uma Constituição com 250 artigos, um Supremo Tribunal com 11 ministros e um Congresso com 594 parlamentares , como quem mostra o cardápio farto de um restaurante que não tem cozinha. A forma está impecável. O conteúdo apodreceu.
O que Aristóteles chamava de phronesis , a prudência prática, o discernimento do homem político virtuoso , é precisamente o que não se pode encontrar no quadro atual do poder. A phronesis exige que o governante veja o bem comum como fim e use os meios adequados para alcançá-lo; exige que ele saiba distinguir o bem real do bem aparente, o interesse da cidade do interesse do clã. O que governa o Brasil hoje não é phronesis: é sofística avançada , a arte de fazer o vício soar como virtude, de chamar de "democracia" o que é oligarquia, de chamar de "justiça social" o que é redistribuição de renda de quem produz para quem vota. E enquanto a sofística governa e o cidadão paga, o pé de frutas podres continua enfeitando a paisagem com suas cores , porque ninguém tem interesse em que a fruta caia, exceto o único personagem que a narrativa oficial nunca menciona como protagonista: aquele sujeito anônimo que acorda cedo, paga seus impostos em dia e financia, sem qualquer contrapartida digna, o teatro mais caro do hemisfério sul.