Existe uma coreografia muito específica nessas trocas de mísseis no Golfo Pérsico, e ela não tem nada a ver com estratégia militar genuína. O Pentágono anuncia que destruiu drones e instalações de radar iranianas; horas depois, Teerã carimba o passaporte da retaliação mirando guarnições americanas no Kuwait e no Bahrein; ambos os lados declaram vitória, ambos preservam o "cessar-fogo" formal, e ambos justificam o próximo pacote orçamentário de defesa. O ritual é tão previsível que daria para vendê-lo como assinatura mensal. E, em certo sentido, é exatamente isso que ele é.

Os números que importam nessa história não estão nos comunicados militares, estão nos balanços trimestrais. Cada drone iraniano abatido representa um interceptador consumido, e cada interceptador consumido é uma linha de receita reposta no contrato plurianual de algum fornecedor do Pentágono. As ações das principais empreiteiras de defesa americanas não respondem a vitórias, respondem a continuidade. A pior notícia possível para esses balanços seria a paz duradoura; a melhor é precisamente este estado de tensão administrada, onde ninguém escala o suficiente para forçar uma decisão política, mas todos consomem munição em ritmo industrial. O Golfo virou esteira rolante.

A escolha dos alvos também merece leitura cuidadosa. Bombardear bases americanas no Kuwait e no Bahrein não é gesto suicida de Teerã, é cálculo cirúrgico. Os iranianos sabem que esses alvos produzem manchetes sem produzir mortes em massa entre civis americanos, o tipo de provocação que mantém o adversário ocupado sem cruzar a linha que obrigaria uma guerra aberta. Já Washington, ao escolher radares e drones em vez de comando e controle iraniano, sinaliza o mesmo recado em sentido inverso. É a velha lógica das guerras por procuração travadas no século passado, onde duas potências se enfrentavam em territórios alheios para preservar suas próprias capitais. Mudou o cenário, mudou a tecnologia, a lógica é idêntica.

Enquanto isso, o custo humano segue distribuído de forma escandalosamente desigual. O marinheiro de vinte anos embarcado num destróier no Estreito de Ormuz não tem ideia de qual oleoduto está protegendo nem de qual lobby aprovou seu deslocamento. O comerciante de Manama vê o preço do seguro de carga triplicar e repassa ao consumidor local, que come menos. O motorista de caminhão iraniano enfrenta gasolina racionada porque sanções e contra-sanções estrangularam a importação de peças de refinaria. Nenhum desses três indivíduos votou em nada disso, nenhum deles lucra com nada disso, e os três, juntos, financiam involuntariamente a próxima reunião de acionistas em Bethesda ou em Teerã.

Há também a hipocrisia diplomática, esse vinho velho servido em garrafa nova a cada geração. Fala-se em "estabilidade regional" como se estabilidade fosse o objetivo de alguém com poder de decisão na sala. Não é. Estabilidade real significaria contratos militares cancelados, bases desmobilizadas, frotas reduzidas, lobistas demitidos. Significaria perguntar por que exatamente uma república do outro lado do planeta precisa de presença militar permanente no Golfo, e a resposta honesta envergonharia qualquer porta-voz. Por isso a resposta honesta nunca é dada. Substitui-se por "interesses vitais", "ordem internacional baseada em regras", "compromissos com aliados", o jargão pronto para fabricar consentimento doméstico enquanto a conta chega disfarçada de imposto, inflação ou dívida soberana.

A história ensina, para quem quiser ouvir, que impérios não caem porque perdem guerras, caem porque se viciam nelas. O combustível que sustenta esse vício chama-se orçamento militar, e o orçamento militar tem um nome técnico mais preciso: transferência compulsória de renda do contribuinte comum para um cartel de fornecedores selecionados. Cada míssil disparado no Golfo é um cheque cruzado entre o seu salário e o jato particular de um executivo que você nunca verá. O cessar-fogo continua valendo. Os contratos também.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.