A cena é tragicômica e merece registro antropológico. O secretário de Estado americano sobe ao púlpito para anunciar, em tom solene, que o império prendeu uma senhora cujo único delito comprovado até agora é ter nascido na mesma família que um general cubano. A irmã do homem que comanda o GAESA, o conglomerado militar que controla turismo, remessas, hotéis e praticamente toda a economia dolarizada da ilha, foi capturada em solo americano sob a alegação genérica de “laços com o regime comunista”. Laços, note bem, não atos. O parentesco virou tipo penal. Bem-vindos à diplomacia do século XXI, onde a presunção de inocência é um luxo reservado a quem tem o passaporte certo.
Convém entender o que é o GAESA antes de seguir. Não se trata de um Ministério da Defesa qualquer, é uma holding fardada que engole entre 50% e 80% da economia formal cubana, dependendo de quem conta. Hotéis Gaviota, lojas em dólar, zonas francas, marinas, importadoras, tudo passa pelo caixa do conglomerado verde-oliva. É a versão tropical e mais grosseira do modelo que a Guarda Revolucionária iraniana opera em Teerã, ou do que os generais egípcios fazem no Cairo desde Mubarak. Estado e empresa fundidos no mesmo organismo, lucro privatizado entre a casta militar, prejuízo socializado entre os cubanos que comem ovo racionado. Washington sabe disso há décadas e conviveu em paz com arranjos idênticos sempre que o ditador de plantão jurou lealdade ao dólar.
A questão incômoda que ninguém na coletiva quis responder é simples. Se o objetivo é asfixiar a cúpula militar cubana, por que prender a irmã, e não congelar os contratos das operadoras americanas e espanholas que abasteceram esses hotéis por trinta anos? Por que mirar uma mulher de meia-idade em vez dos bancos que processaram remessas, dos cruzeiros que atracaram em Havana até ontem, das empresas de telecom que fecharam acordos com o ETECSA, braço civil do mesmo polvo militar? A resposta é desconfortável. Prender empresário americano dá processo, dá lobby, dá deputado ligando furioso para o Departamento de Estado. Prender uma cubana sem padrinho rende manchete grátis no horário nobre de Miami a sete meses de eleição estadual na Flórida.
Há também o detalhe pequeno do dinheiro. O bloqueio econômico contra Cuba completa sessenta e três anos e produziu, segundo qualquer auditoria honesta, exatamente zero quedas de regime e milhões de exilados. Quem lucrou? O próprio GAESA, que se tornou monopolista justamente porque o embargo eliminou a concorrência. Lucraram as empresas de remessas que cobram pedágio sobre a saudade dos cubanos da Flórida. Lucraram os escritórios de advocacia em Washington especializados em licenças OFAC, esse mercado paralelo onde se vende, a peso de ouro, o direito de fazer negócio com quem o governo finge proibir. Cada sanção nova é um contrato novo para os despachantes do império. Cada prisão espetacular é combustível para o orçamento do próximo ano da agência que prendeu.
O padrão histórico é antigo e enjoado de tão repetido. Roma punia famílias inteiras quando não conseguia capturar o sedicioso, os reis bourbônicos confiscavam o patrimônio dos parentes do herege, Stálin mandava cunhados para a Sibéria, e agora a maior democracia do planeta redescobre que algemar a irmã é mais fácil do que confrontar o irmão. Chama-se isso de pressão diplomática, mas o nome técnico, nos manuais de história que ninguém lê mais, é refém. Refém de classe média, refém de família burguesa, refém com sobrenome conveniente para uma foto bem iluminada. O cidadão americano paga a conta sem saber, o cubano comum continua sem leite, e a casta militar de Havana segue contando dólares nos cofres do GAESA, agora com a vantagem retórica de poder apontar o dedo para o vizinho do norte que sequestra mulheres por parentesco.
No fim, sobra a pergunta que nenhum colunista bem-comportado fará. Se o crime é o sobrenome, quantos parentes de generais sauditas, paquistaneses, egípcios e emiradenses circulam livremente pelos resorts da Flórida neste exato momento, financiados pelo mesmo Departamento de Estado que hoje algema uma cubana? A resposta cabe num suspiro. A geopolítica não tem princípios, tem fornecedores.
Com informações da Fox News World. A análise e opinião são do O Algoz.