O Comando Central americano divulgou, com o capricho de produtora de Hollywood, o vídeo de um de seus destróieres metralhando um cargueiro iraniano nas águas do Estreito de Hormuz. A encenação tem roteiro conhecido: um navio suspeito, uma advertência ignorada, tiros certeiros, e a narrativa oficial de que a liberdade de navegação foi heroicamente preservada. Ninguém explica, claro, como um navio de guerra a oito mil quilômetros de casa está patrulhando uma rota comercial que não liga nenhum porto americano a coisa nenhuma. A geografia é irrelevante quando o mapa é desenhado por quem assina os contratos do Pentágono.
Hormuz não é um estreito qualquer. Por aquela faixa de mar, mais estreita que a distância entre São Paulo e Campinas, escoa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta. Cada tiro disparado ali mexe na cotação do barril em Londres, Nova York e Xangai antes mesmo de a pólvora assentar. Quem lucra com volatilidade? Os mesmos de sempre: as mesas de trading em Houston e Genebra, os fundos de hedge posicionados em derivativos de energia, e os produtores americanos de óleo de xisto que só se tornam competitivos quando o Oriente Médio arde. Curioso como o xisto texano sempre fica mais lucrativo depois de uma manchete vinda do Golfo Pérsico.
A coreografia se repete com a pontualidade de um relógio suíço desde que o Xá foi deposto em 1979. Sempre que Washington precisa justificar um novo pacote de bilhões para armamento naval, aparece um incidente no Golfo. Sempre que algum contrato de fragatas está para ser votado no Congresso, surge um cargueiro iraniano suspeito. O ciclo é tão previsível que deveria constar nos prospectos das empresas de defesa como fator positivo para o acionista. Lockheed, Raytheon, Northrop Grumman: seus balanços trimestrais agradecem a cada míssil disparado sobre águas muçulmanas, pagos pontualmente pelo contribuinte americano que jamais viu um barril de petróleo iraniano na vida.
A República Islâmica não é um oásis de virtude, obviamente. É um regime teocrático opressor, que sufoca seu próprio povo e financia milícias pelo Oriente Médio. Mas reconhecer isso não transforma o bloqueio econômico imposto por Washington em ato humanitário. Sanções são armas de cerco, versão moderna da tática medieval de matar a cidade de fome para dobrar o rei. Quem morre no cerco nunca é o rei. Morre a criança sem insulina porque o embargo travou a importação de medicamentos, morre o comerciante de Isfahan cujo cliente europeu sumiu, morre o engenheiro de Shiraz que perdeu acesso ao mercado internacional. O aiatolá continua comendo bem.
Enquanto isso, o cargueiro alvejado transportava, segundo fontes, carga civil. Marinheiros paquistaneses, filipinos, bengaleses, contratados por ninharia para operar embarcações sob bandeira de conveniência, viraram estatística de uma guerra que não é deles, travada por um império que não os representa, em defesa de interesses corporativos que nunca lhes dirigiram a palavra. Morreram ou se feriram em nome da ordem internacional baseada em regras, aquela expressão elástica que se estica ou se contrai conforme a conveniência de Washington. Para o Iêmen bombardeado por sauditas armados pelos EUA, a ordem é silêncio. Para um cargueiro iraniano, a ordem é canhão.
Toda vez que o vídeo de um ataque viraliza com aquela estética asséptica de videogame militar, o espectador comum é convidado a torcer como se fosse final de campeonato. Esquece-se que, do outro lado da mira térmica, havia gente. Esquece-se também que a conta daquele destróier, daquela munição, daquele combustível queimado vem parcelada no imposto de renda do americano médio, e indiretamente no brasileiro que paga gasolina mais cara porque o barril subiu três dólares depois da manchete. O império cobra pedágio até de quem nunca pisou em seu território. É o genial do esquema: quem sangra são sempre os outros, quem fatura é sempre o mesmo clube fechado de acionistas, lobistas e almirantes aposentados em conselhos de administração. Hormuz não é um estreito, é um caixa eletrônico.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.