O comunicado da embaixada dos Estados Unidos em Londres tem aquele tom burocrático de quem não quer admitir o óbvio. Pede aos americanos que circulem com cautela aumentada em redondezas de sinagogas, escolas judaicas e estabelecimentos sinalizados como vinculados a Israel ou aos próprios Estados Unidos, não apenas no Reino Unido, mas em toda a Europa. Tradução do diplomatês para o português dos vivos: o governo que despeja bilhões em material bélico no Oriente Médio acaba de informar aos seus contribuintes que a fatura do troco está chegando nas calçadas de Manchester, Berlim e Paris. O império exporta bombas e importa medo.
Há uma coreografia conhecida nesse tipo de alerta. Primeiro vem a decisão de financiar um lado do conflito, decisão tomada em gabinetes climatizados onde nenhum dos presentes nunca dormiu ouvindo sirene de mísseis. Depois vem a indignação seletiva quando a violência migra para fora do mapa autorizado. Por último, vem o aviso oficial recomendando ao cidadão comum que se esconda das consequências que o seu próprio governo plantou. O sujeito de Ohio que pagou imposto para um carregamento de munição guiada agora descobre, ao desembarcar em Heathrow, que precisa evitar certos bairros porque alguém, em algum lugar, decidiu cobrar o boleto. A conta sempre desce, nunca sobe.
Os números do negócio não disfarçam a engrenagem. A indústria que fabrica os explosivos, os sistemas de defesa, os radares e os caças vê suas ações subirem a cada novo ciclo de tensão, enquanto fundos de pensão e contratos plurianuais transformam cada escalada em receita recorrente. O capital político se converte em capital financeiro com a eficiência de uma linha de montagem, e os think tanks de Washington produzem justificativas morais para cada nova remessa com a mesma regularidade com que uma padaria assa pão. Quem lucra com a guerra raramente assiste ao funeral. Quem assiste ao funeral raramente entende quem lucrou.
A história desse padrão é antiga e quase entediante de tão repetida. Toda potência expansionista, dos fenícios aos britânicos, descobriu que projetar força lá fora exige naturalizar o medo aqui dentro. Roma colocava legiões na Germânia e depois reclamava que as ruas da capital andavam perigosas. Londres dominava o mapa-múndi e depois se surpreendia com bombas no metrô. O ciclo nunca varia: aventura externa, inflamação local, chamado por mais segurança, mais orçamento, menos liberdade civil. O Estado cresce de quatro patas, primeiro pela perna do canhão, depois pela perna da câmera de vigilância. E o cidadão, que jurou amar a bandeira, acorda numa república onde precisa pedir licença para andar na própria rua.
Note o detalhe cruel da geografia desse alerta. Não se pede cautela em Tóquio, em Buenos Aires, em Joanesburgo. Pede-se cautela exatamente nos países que mais alinharam suas chancelarias ao eixo militar de Washington nas últimas décadas, exatamente onde o establishment local apostou em ser sócio menor da política externa americana. A conta da cumplicidade chega para o pequeno comerciante de Hamburgo, para o aposentado de Bruxelas, para a mãe judia em Londres que apenas queria levar o filho à escola sem precisar de viatura na esquina. A diplomacia das grandes capitais cobra pedágio nas ruas das pequenas vidas. E o que o comunicado oficial chama de risco difuso é, na verdade, a externalidade calculada de uma política deliberada.
Resta a pergunta que nenhum porta-voz responderá em coletiva. Se a estratégia atual produz tamanha onda de hostilidade contra civis comuns em três continentes, ela é uma estratégia bem-sucedida ou apenas lucrativa para alguns? Há diferença entre proteger uma comunidade e usá-la como justificativa permanente para uma máquina de guerra que precisa de combustível ideológico todo trimestre. Os judeus europeus que hoje dormem com vidro blindado não pediram para ser bandeira de ninguém, e os americanos que agora andam de cabeça baixa em Londres não assinaram nenhum tratado. Foram alistados sem consulta, taxados sem voto, expostos sem aviso. No fim, o aviso da embaixada é honesto de um jeito que ela mesma não percebe: confessa, em letras miúdas, que o governo já não consegue proteger os seus do mundo que os seus mesmos ajudaram a incendiar.
Com informações da Fox News World. A análise e opinião são do O Algoz.