A embaixada dos Estados Unidos em Londres acaba de instruir seus cidadãos a variarem rotas, evitarem aglomerações, fugirem de escolas, igrejas e pontos turísticos. É o tipo de comunicado que, lido sem anestesia, soa como capítulo de manual de guerrilha urbana, não como aviso consular numa das capitais mais vigiadas do planeta. Quando a maior potência militar da história precisa orientar seus turistas a se moverem como espiões em fuga dentro do território de seu aliado mais íntimo, alguma coisa quebrou no enredo oficial sobre vinte anos de "guerra ao terror" supostamente vencida.
Convém lembrar a contabilidade. Desde 2001, o contribuinte americano transferiu algo perto de oito trilhões de dólares para o complexo de segurança nacional, e o britânico bancou sua fatia proporcional do mesmo banquete. Esse dinheiro não evaporou: virou ações da Lockheed, da Raytheon, da BAE Systems, virou contratos de reconstrução em Cabul que viraram pó com o Talibã, virou drones que explodiram casamentos no Iêmen, virou campanhas de bombardeio no Iraque, na Líbia, na Síria. Cada míssil disparado é um cheque assinado pelo trabalhador da fábrica em Birmingham e pelo motorista de Uber em Ohio, depositado na conta do acionista do fundo de pensão certo. O nome técnico disso é programa social para ricos com uniforme militar.
O detalhe que a nota da embaixada não menciona, porque seria deselegante, é que o terror que hoje obriga o turista a desviar de Westminster nasceu, em grande parte, das próprias políticas vendidas como antiterrorismo. Derrubar governos seculares e deixar o vácuo para milícias, armar "rebeldes moderados" que viram fundamentalistas no semestre seguinte, sancionar populações inteiras até a fome, importar mão de obra barata sem absorver socialmente quem chega: tudo isso tem consequência. A história é tediosa nesse ponto. Impérios que se metem em guerras distantes acabam descobrindo que a guerra tem hábito de voltar para casa, normalmente de metrô, na hora do rush. Roma aprendeu na pele com seus próprios mercenários germânicos. Os britânicos aprenderam com a Irlanda, depois com o subcontinente indiano, depois com o Quênia. Agora reaprendem em Manchester, em Londres, em Liverpool.
O ritual que vem a seguir é previsível ao ponto da pornografia institucional. O nível de ameaça sobe, então sobem os orçamentos. Sobem os orçamentos, então sobem as ações das empresas de vigilância biométrica, de software de reconhecimento facial, de armamento policial militarizado. Câmeras se multiplicam, leis de exceção se tornam permanentes, criptografia vira suspeita, dinheiro em espécie vira indício, opinião dissidente vira "radicalização precoce". O cidadão comum, que não pediu guerra nenhuma, descobre que pagou duas vezes: uma para criar o inimigo lá fora, outra para ser tratado como inimigo aqui dentro. O comerciante perde clientes porque a rua foi fechada, o pai não leva mais o filho ao museu, a senhora muda de itinerário na ida à missa. A liberdade evapora em nome da segurança que nunca chega.
Repare ainda na estranha geometria moral do comunicado. Os mesmos governos que armam facções em três continentes, que vendem caças para regimes que decapitam jornalistas, que aplaudem bombardeios em hospitais quando o alvo é conveniente, agora pedem que seus cidadãos andem em zigue-zague para escapar do retorno postal de suas próprias políticas externas. É a hipocrisia diplomática em estado puro: privatizar os lucros das aventuras militares e socializar o medo entre os turistas. Os contratos de defesa continuam sendo renovados em ambientes climatizados em Arlington e em Whitehall, enquanto o aviso para "variar a rota" cai no e-mail do estudante de intercâmbio em Bloomsbury.
O que não aparece em comunicado nenhum é o cálculo simples que qualquer comerciante de feira faz: quem ganha com isso e quem perde. Ganham as agências, os fornecedores, os think tanks que vivem de vender a próxima ameaça, os políticos que precisam de inimigo para justificar mandato. Perde o pedreiro paquistanês de Birmingham que será revistado três vezes na semana, perde a família americana que cancelou as férias, perde o pequeno empresário de Soho que viu o movimento cair, perde o jovem britânico que não terá pensão porque o orçamento foi para mais um porta-aviões. O Estado manda, o mercado de armas fatura, e o cidadão, esse personagem decorativo da democracia moderna, paga a conta, abaixa a cabeça e troca de calçada.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.