Quando duas potências que se odeiam publicamente sentam para assinar um memorando de entendimento, a primeira pergunta honesta não é sobre paz, é sobre preço. O documento de sessenta dias entre Estados Unidos e Irã, segundo vazamentos cuidadosamente coreografados, cobriria três pilares: a livre passagem pelo Estreito de Hormuz, algum alívio nas sanções que asfixiam a economia iraniana há quase meio século e um teto verificável para o enriquecimento de urânio. Em letras maiúsculas, soa como diplomacia. Em letras miúdas, é a velha contabilidade do império: cede-se aqui, cobra-se ali, e quem nunca sentou à mesa carrega o boleto.
Hormuz não é um nome bonito num mapa, é a artéria por onde escorre cerca de um quinto do petróleo do planeta. Garantir a passagem significa, na prática, blindar margens de seguradoras de Londres, lucros de traders em Genebra e dividendos de petroleiras texanas. A retórica oficial fala em estabilidade dos mercados, expressão maravilhosamente vaga que sempre traduz a mesma coisa: estabilidade dos contratos já assinados por quem tem advogados caros. O marinheiro filipino que cruza o estreito num petroleiro registrado na Libéria não vai sentir alívio nenhum; continuará ganhando o mesmo salário miserável sob a mesma ameaça de mina à deriva. A diferença é que agora o risco virou linha de balanço auditável.
O suposto alívio de sanções é o ponto que merece o sarcasmo mais afiado. Foram décadas estrangulando uma população inteira em nome de princípios elevados, bloqueando importação de remédios pediátricos, sufocando pequenos comerciantes que jamais ouviram falar de centrífuga, empurrando a classe média iraniana para o mercado paralelo e para os braços da Guarda Revolucionária, que prosperou justamente porque o embargo destruiu a concorrência privada. Agora, com a generosidade de quem devolve trocado, prometem soltar parcialmente a corda no pescoço por sessenta dias. Sessenta. O tempo exato para um leilão de licenças, três rodadas de lobby no Capitólio e a renegociação silenciosa de dívidas em dólar que estavam congeladas em bancos suíços. O contribuinte americano, naturalmente, descobrirá depois que parte da conta da reconciliação aparecerá em algum suplemento orçamentário de defesa, embrulhado como iniciativa de monitoramento regional.
Sobre o urânio, a comédia se completa. Limitar enriquecimento a um determinado percentual é o tipo de cláusula que existe para ser violada com elegância e renegociada com bônus. A história recente está cheia desses tetos móveis: bastam algumas centrífugas a mais aqui, uma inspeção adiada ali, e em pouco tempo o mesmo acordo serve de pretexto para a próxima rodada de sanções, vendida como fracasso da diplomacia e vitória dos falcões. É o ciclo perfeito da indústria da crise: assina-se a paz que prepara a guerra que justifica o orçamento que financia os contratos que sustentam as carreiras que assinarão o próximo acordo. Os mesmos escritórios de consultoria em Washington e em Teerã faturarão dos dois lados, como banqueiros napoleônicos que vestiam casacas azuis pela manhã e vermelhas à tarde.
Há ainda a camada mais cínica, a dos atores secundários que ninguém menciona. Israel observa com a paciência de quem sabe que qualquer acordo que não desmantele integralmente o programa nuclear iraniano será descrito internamente como capitulação, alimentando seu próprio complexo de segurança e justificando novos pacotes de ajuda militar votados sem debate. As monarquias do Golfo, que dependem do mesmo estreito, calculam quanto cobrarão em concessões diplomáticas para fingir aplaudir. A Rússia e a China, que já compram petróleo iraniano com desconto generoso, torcem discretamente para que o alívio seja suficiente para legitimar suas próprias rotas e insuficiente para devolver Teerã ao mercado ocidental. Cada capital tem sua planilha. Nenhuma delas tem o nome do açougueiro de Isfahan que faliu, do estudante de Shiraz que emigrou ou do soldado americano de dezenove anos que segue ancorado no Bahrein sem entender por quê.
No fim das sessenta dias, qualquer que seja o desfecho, três certezas permanecerão. As ações das empreiteiras de defesa terão oscilado de forma lucrativa para quem comprou no momento certo. Os think tanks já terão produzido os relatórios que justificam tanto a renovação quanto o colapso do acordo, faturando dos dois cenários. E o cidadão comum, dos dois lados do oceano, continuará pagando impostos para sustentar um jogo cujas regras nunca lhe foram explicadas. Paz, nesse vocabulário, é só o nome comercial da próxima guerra.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.