Existe algo de patético na coreografia do cessar-fogo contemporâneo. Washington e Teerã selaram em 8 de abril um acordo que durou aproximadamente o tempo necessário para a tinta secar nos comunicados oficiais, e seguem trocando ataques com a mesma naturalidade com que trocam acusações nas tribunas internacionais. A trégua existe no papel, nas declarações de chancelaria, nas manchetes domesticadas. Não existe no céu do Golfo, não existe nos depósitos de combustível bombardeados, não existe nos corpos que continuam sendo enterrados de ambos os lados. O cessar-fogo virou figura de retórica, ornamento diplomático, alibi para que as duas máquinas estatais continuem fazendo exatamente aquilo que prometeram parar de fazer.
Convém olhar para as planilhas antes de olhar para os discursos. Cada míssil interceptado é um pedido de reposição. Cada drone abatido é uma fatura aberta para o orçamento do ano seguinte. Os contratos de defesa americanos não param de crescer há duas décadas, e o nome técnico para isso é prosperidade, pelo menos nos relatórios trimestrais das empresas que produzem o sistema Patriot, os THAAD, os caças que precisam ser repostos no Oriente Médio. Do lado iraniano, o regime descobriu há muito tempo que o estado de guerra permanente é o melhor justificador da repressão interna, do desvio de recursos para a Guarda Revolucionária e da nacionalização vergonhosa de cada setor produtivo que sobrou. Os dois governos precisam do conflito. Os dois governos lucram com o conflito. Os dois governos negociam exatamente o suficiente para que o conflito continue.
A história tem o péssimo hábito de se repetir para quem se recusa a ler livros. As tréguas que duram menos do que o anúncio são tradição antiga, basta recordar como funcionavam os armistícios nos Bálcãs no início do século passado, ou as pausas humanitárias da guerra do Vietnã que serviam apenas para que os bombardeiros recarregassem. O cessar-fogo moderno não é instrumento de paz, é instrumento de logística. Serve para reabastecer munição, recolher feridos, reorganizar batalhões e voltar à mesa de carnificina com fôlego renovado. Quem acredita que diplomatas resolvem guerras nunca leu a história de uma única guerra até o fim. Guerras terminam quando uma das partes não consegue mais pagar, ou quando alguém percebe que o lucro virou prejuízo. Nada disso aconteceu ainda no caso atual.
Há ainda o componente mais sórdido dessa equação, que é o uso das sanções como arma silenciosa. Enquanto os mísseis ganham manchete, o cerco econômico segue triturando a população iraniana comum, aquela que não decide política externa, não escolhe ayatolá, não vota em programa nuclear. O pequeno comerciante de Teerã que viu suas economias virarem pó por causa da inflação importada das sanções não está em nenhuma negociação. O paciente que não recebe medicação por embargo logístico não tem assento na mesa. O trabalhador americano que financia, sem saber, a aventura militar através de impostos e desvalorização monetária também não tem voz. Sanção é guerra por outros meios, e a vítima preferencial da guerra por outros meios é sempre o civil que jamais quis lutar.
O mais grotesco é a embalagem moral. Cada bombardeio vem acompanhado da palavra defesa, cada ataque vem batizado como resposta proporcional, cada novo lote de armamento vendido para os aliados regionais vem rotulado como estabilização. O vocabulário foi todo capturado, esterilizado, transformado em ferramenta de marketing bélico. Nenhum governo na história mandou seus jovens morrerem dizendo a verdade sobre os motivos. Sempre houve uma bandeira, uma honra nacional, uma ameaça existencial, um lobby satisfeito por trás da bandeira. O acionista da indústria de defesa não vai ao funeral do soldado. O diplomata que assinou o cessar-fogo de papel não visita o hospital onde a criança iraniana perdeu as duas pernas. O contribuinte que pagou a fatura não recebe sequer um cartão de agradecimento.
No fim das contas, o cessar-fogo de 8 de abril cumpriu perfeitamente sua função, que nunca foi cessar o fogo. Foi gerar a ilusão de processo diplomático enquanto os negócios continuam normalmente, foi acalmar os mercados o suficiente para que os contratos de longo prazo fossem assinados, foi entregar à imprensa internacional um osso para roer enquanto o verdadeiro espetáculo segue nos bastidores. A paz não interessa a quem fatura com a guerra, e quem fatura com a guerra está confortavelmente sentado dos dois lados da mesa de negociação. O resto é teatro, e o ingresso desse teatro é pago com o sangue de quem nunca foi convidado para a estreia.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.