Há uma cena que se repete há oitenta anos com figurinos diferentes e o mesmo enredo. Um emissário de Washington desembarca em capital asiática, sorri para as câmeras, garante que o império não está abandonando ninguém, e em seguida abre a maleta com o boleto. Em Singapura, no fórum anual onde generais e ministros fingem discutir paz enquanto negociam contratos, o secretário de Defesa repetiu o mantra: os Estados Unidos não estão dando as costas à Ásia, mas esperam que os aliados gastem mais com defesa. A palavra defesa, nesse dialeto particular, significa comprar caças, fragatas e mísseis fabricados em uma faixa específica de territórios americanos, preferencialmente em estados onde senadores influentes precisam reeleger-se.

O truque é antigo e elegante. Primeiro se constrói o medo, hoje pintado em vermelho mandarim, ontem em vermelho soviético, anteontem em amarelo imperial japonês. Depois se oferece o remédio, sempre o mesmo, sempre caro, sempre pago em dólares que retornam à matriz. Coreia do Sul, Japão, Filipinas, Austrália e Taiwan são tratados como clientes de um plano de saúde que ninguém pode cancelar, porque o cancelamento implica ficar sozinho diante do monstro que o próprio vendedor passou décadas inflando no imaginário coletivo. É a protection racket mais sofisticada já inventada, com a vantagem de ser chamada de aliança estratégica em vez de extorsão consentida.

Siga o cheque. Quando Tóquio anuncia que dobrará seu orçamento militar, os papéis da Lockheed Martin, da Raytheon e da Northrop Grumman sobem em Nova York antes mesmo de a tinta secar no comunicado. Quando Manila reabre bases americanas em troca de proteção contra Pequim, há contratos de logística, manutenção e fornecimento que enriquecem empreiteiras com endereço em Virgínia. Quando Camberra entra no pacto dos submarinos nucleares, o dinheiro do contribuinte australiano atravessa o Pacífico para alimentar estaleiros que empregam eleitores de senadores específicos. A geopolítica é o departamento de marketing do complexo industrial-militar, e o Indo-Pacífico virou a vitrine premium.

A narrativa oficial veste isso de virtude. Fala-se em ordem baseada em regras, liberdade de navegação, contenção do autoritarismo, como se o império que invadiu o Iraque por mentiras, bombardeou a Líbia até o caos e mantém oitocentas bases em oitenta países tivesse alguma autoridade moral para ensinar moderação a quem quer que seja. A hipocrisia diplomática é uma indústria tão lucrativa quanto a dos mísseis, e ambas dividem o mesmo escritório em Washington. Quando um diplomata pronuncia a palavra parceria, conte os dedos depois do aperto de mão.

O custo verdadeiro dessa engenharia não aparece nos comunicados. Aparece no jovem filipino que vai morrer em treinamento conjunto, no pequeno comerciante de Okinawa expulso para ampliar pista de pouso, no contribuinte japonês cuja aposentadoria minguou enquanto o orçamento militar engordou, no técnico taiwanês que vive com a mochila pronta porque alguém decidiu transformar sua ilha em peça de tabuleiro. Os governos chamam isso de dissuasão. Os mortos não opinam, e os vivos pagam a conta sem ver o cardápio. A história ensina, para quem ainda lê história, que toda corrida armamentista termina exatamente onde finge não querer ir.

O mais cínico é o tom paternal com que se cobra dos vassalos uma contribuição maior, como se a tutela imposta por sete décadas fosse um favor que agora precisa ser ressarcido. Os asiáticos não pediram guarda-chuva nenhum, herdaram-no junto com a derrota de 1945 e com tratados redigidos em quartos onde não estavam presentes. Agora descobrem que o aluguel subiu, que o senhorio anda nervoso, e que recusar o reajuste pode significar ficar exposto à tempestade que o próprio senhorio convoca quando precisa vender mais telhados. Império não morre de morte natural; morre quando os tributários cansam de pagar pela proteção contra os fantasmas que ele mesmo fabrica.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.