Há algo de teatral, quase litúrgico, no espetáculo de Ospreys V-22 pairando sobre o céu de Caracas enquanto o Departamento de Estado jura que se trata apenas de um exercício de rotina para proteger funcionários consulares. A coreografia é velha conhecida: o império nunca anuncia a invasão, ele a ensaia em público, filma o ensaio, distribui o vídeo, e espera que a opinião pública doméstica se acostume com a imagem antes que os caixões comecem a voltar. Quem viu este filme em 1989 no Panamá, em 2003 no Iraque, em 2011 na Líbia, reconhece a trilha sonora de imediato. Muda o cenário, muda o vilão da semana, mas o roteirista é sempre o mesmo, e o produtor executivo mora em McLean, Virgínia, com endereço comercial em Bethesda.
Convém lembrar o preço do convite. Cada V-22 Osprey sai por aproximadamente cento e vinte milhões de dólares, fabricado pela parceria Bell Boeing, com manutenção que devora outros onze mil dólares por hora de voo. Sobrevoar a embaixada em Caracas durante algumas horas custa mais do que o orçamento anual de saúde pública de uma cidade venezuelana média. E aqui reside a beleza obscena do esquema: o trabalhador de Ohio que pagou imposto sobre seu salário de quarenta mil dólares acaba de financiar, sem saber, uma performance aérea destinada a justificar a próxima rodada de contratos de defesa. Ele não vota neste orçamento, não escolhe este alvo, não receberá um centavo do lucro, mas pagará a fatura integral, com juros, pelas próximas três gerações.
A narrativa oficial fala em proteger americanos, fórmula mágica que abriu as portas de Granada, do Panamá e de meia Mesoamérica ao longo do século passado. Curioso como a proteção sempre exige aeronaves que custam mais que o PIB de províncias inteiras, e nunca, jamais, a simples evacuação por via comercial. Curioso também como o país ameaçado em questão senta sobre as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, com cerca de trezentos bilhões de barris esperando que alguém venha libertá-los em nome da democracia. A geologia tem um senso de humor cruel: ditaduras pobres raramente recebem visita de fuzileiros, ditaduras ricas em hidrocarbonetos recebem itinerários completos com data de chegada.
O cálculo realista é frio e dispensa sentimentalismo. Washington não tolera, na sua zona de influência hemisférica, um regime que vende petróleo em yuans, que oferece concessões a empresas russas e chinesas, e que mantém presença militar de potências rivais a poucas centenas de quilômetros da costa de Miami. A Doutrina Monroe nunca morreu, apenas trocou de roupa. O que mudou foi o método de cobrança: antes mandavam canhoneiras, hoje mandam congelamento de ativos, sanções secundárias, e Ospreys voando baixo para fotografia. O resultado para o venezuelano comum é idêntico ao do cubano dos anos sessenta: prateleira vazia, remédio inexistente, filho na fila do passaporte.
E é nesta última camada que a hipocrisia atinge seu ápice barroco. As sanções aplicadas desde 2017 já mataram, segundo estimativas conservadoras de organismos independentes, mais de quarenta mil venezuelanos por falta de medicamentos e equipamentos médicos. Nenhum desses mortos aparece nas estatísticas de vítimas da ditadura que circulam em Washington, porque foram mortos pelo bloqueio, não pelo bloqueado. O comerciante de Maracaibo que faliu, a avó de Valência que morreu sem insulina, o engenheiro que emigrou a pé até o Peru, esses não cabem na planilha do think tank financiado pela mesma empreiteira que construirá os hospitais quando a transição finalmente chegar. O ciclo é perfeito: destrói-se com sanção, invade-se com pretexto humanitário, reconstrói-se com contrato no-bid, e cobra-se a conta do contribuinte de ambos os lados da fronteira.
Os Ospreys voltarão à base hoje. Os contratos de reconstrução já estão sendo redigidos em escritórios de advocacia da K Street. O venezuelano comum continuará entre o açoite interno e o estrangulamento externo, espremido por dois Estados que se odeiam em público e se complementam em privado. A liberdade dele, esta sim, jamais constou de pauta alguma.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.