Há algo de profundamente revelador no espetáculo de uma das máquinas de propaganda mais bem financiadas da história sendo ridicularizada por vídeos de bonequinhos de plástico feitos em Teerã. Os criadores iranianos entenderam o que os estrategistas de Washington fingem não ver, que a narrativa oficial americana sobre o Oriente Médio envelheceu mal, muito mal, e que uma geração inteira cresceu assistindo intervenções humanitárias que terminaram em cidades arrasadas, contratos bilionários para empreiteiras do Pentágono e refugiados nas fronteiras europeias. Os vídeos virais não precisam mentir, basta mostrar, com humor, aquilo que a imprensa embutida se recusa a narrar.
O custo da operação é risível diante do orçamento do Departamento de Estado, que queima anualmente quantias astronômicas em think tanks, assessorias de comunicação estratégica e contratos com empresas de relações públicas que deveriam vender a democracia como se fosse refrigerante. O Irã, sancionado, bloqueado, isolado financeiramente, descobriu que um adolescente com editor de vídeo gratuito produz mais engajamento do que um comitê interagências em Foggy Bottom. O império gasta bilhões para convencer o mundo de que suas guerras são justas, enquanto seus adversários gastam centavos para lembrar que os mísseis continuam caindo em escolas.
A engenhosidade da operação iraniana está em explorar as fissuras internas da política americana, as mesmas fissuras que os neoconservadores passaram vinte anos fingindo que não existiam. O contribuinte médio americano, aquele que financia cada porta-aviões no Golfo Pérsico, aquele que paga pelos drones que sobrevoam países onde seu país jamais declarou guerra, descobriu que a conta é paga por ele mas o lucro vai para Bethesda, Arlington e Wall Street. Quando os vídeos de Teerã mostram a contradição, fazem rir, e o riso é sempre mais letal do que o argumento, por isso todo regime teme os comediantes antes dos filósofos.
A história é didática para quem presta atenção. Roma vendeu pão e circo para esconder que o tesouro ia para as legiões na Germânia. Os Bourbons financiaram guerras no continente enquanto o povo francês comia casca de pão, até que um dia a aritmética da fome encontrou a guilhotina. O Reino Unido administrou impérios com libras esterlinas emprestadas e perdeu Índia, Suez e a própria moeda quando os banqueiros de Nova York cansaram de subsidiar a fantasia. Toda potência imperial chega ao ponto em que a narrativa oficial custa mais caro do que a própria guerra, e é nesse ponto que os vídeos de plástico começam a fazer sentido. O problema nunca foi o Irã, foi sempre o espelho.
Enquanto isso, quem ganha com a guerra narrativa permanente? Os mesmos de sempre, os fabricantes de armamentos que precisam de um inimigo perpétuo para justificar o próximo contrato, os consultores de segurança que vivem de relatórios alarmistas, as fundações que transformam interesse corporativo em suposta preocupação humanitária, os políticos que recebem doações de campanha diretamente dos lobbies que terceirizam a matança. O cidadão americano paga a conta, o cidadão iraniano morre sob as sanções, o petroleiro do Golfo engorda margens, e no final do dia a realidade continua sendo mais simples do que os editoriais do Washington Post admitem, guerra é um negócio, sanção é um negócio, reconstrução é um negócio, e a democracia virou apenas o selo de qualidade estampado na embalagem.
Os vídeos de Teerã não venceram porque eram sofisticados, venceram porque eram honestos em sua ironia, e a honestidade é a arma mais escassa no arsenal ocidental contemporâneo. Quando o império precisa de bilhões para convencer e o adversário precisa apenas de um celular para desmascarar, a guerra já acabou, só falta alguém avisar Washington. O contribuinte americano perdeu a narrativa no mesmo dia em que perdeu o direito de saber para onde vai seu imposto.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.