Cinquenta e cinco milhões de dólares. Escreva o número por extenso e ele fica ainda mais obsceno. É a quantia que o protagonista da maior fraude bancária já registrada em solo tupiniquim despejou, em apenas doze meses, numa única empresa de turismo de altíssimo padrão. Não se trata de uma família viajando de férias, não se trata de um empresário excêntrico colecionando quilômetros aéreos. Trata-se, segundo a própria Polícia Federal, de uma operação cirúrgica de aproximação com autoridades, financiada com dinheiro que, no fim das contas, saiu do bolso de correntistas iludidos e de garantidores públicos que sempre aparecem quando o carrossel para de girar.

O método é antigo, tão antigo quanto os banquetes que os oligarcas romanos ofereciam aos senadores antes de propor uma lei conveniente. Muda-se o cardápio, muda-se o vinho, o resto permanece igual. Você não precisa entregar um envelope pardo debaixo da mesa quando pode entregar uma suíte presidencial em Mônaco, um voo fretado para a Riviera, uma temporada de esqui nos Alpes com tudo pago. O suborno moderno não se envergonha de si mesmo, ele se veste de hospitalidade, de networking, de relacionamento institucional. E a autoridade que aceita jura de pé junto que aquilo foi apenas uma cortesia entre amigos, como se amigos costumassem gastar o equivalente ao salário anual de trezentos professores num único fim de semana.

Siga o dinheiro e a história se conta sozinha. O banco captava recursos oferecendo rendimentos gordos que qualquer estudante de matemática financeira reconheceria como insustentáveis. O rombo se acumulava nas prateleiras contábeis enquanto o dono trocava a fatura por acesso, e acesso, no país onde tudo depende de uma canetada, vale mais do que ouro. Cada jantar regado a Cristal era uma apólice de seguro contra a fiscalização, cada iate ancorado em águas mediterrâneas era um lobby feito sem a chatice do escritório em Brasília. O contribuinte, sempre ele, pagava a garrafa sem sequer ser convidado para o brinde.

E aqui reside a mecânica perversa que a imprensa cortesã insiste em tratar como caso isolado, como se cada escândalo brotasse do nada, filho de nenhum sistema, órfão de qualquer estrutura. Não é isolado. É o funcionamento normal de um arranjo onde o Estado concentra tanto poder discricionário que virou o cliente mais lucrativo do planeta, e onde qualquer um disposto a pagar a taxa de entrada consegue transformar risco privado em prejuízo socializado. A regulação existe, os órgãos existem, as leis existem. O que faltou, curiosamente, foi vontade de olhar para o que estava evidente nas planilhas.

Enquanto o cidadão comum é intimado pela Receita por uma divergência de trezentos reais na declaração, cinquenta e cinco milhões de dólares circulam alegremente entre agências de viagem cinco estrelas sem que ninguém pergunte a origem, o destinatário do benefício, o propósito da generosidade. A leniência é seletiva, sempre foi. Existe uma justiça para quem paga o hotel e outra para quem limpa o quarto. E quando o esquema desmorona, como sempre desmorona, o roteiro é conhecido: o empresário some, alguns funcionários graúdos são sacrificados no altar da opinião pública, e a fatura, essa sempre curiosa, aparece na conta de quem nunca embarcou.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre o episódio. Quem pagou? O correntista de classe média que confiou no selo do garantidor. E quem recebeu? Além do empresário fugitivo e de seus operadores, aquela plateia silenciosa de autoridades cujos nomes a investigação vai revelando aos poucos, com a delicadeza de quem tira esparadrapo devagar para não doer demais. O rei está nu, cambaleando de champanhe, e a corte finge que é traje de gala.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.