Viktor Orbán reconheceu a derrota neste domingo. A Revista Oeste noticiou o fato com a sobriedade de quem acompanhava o inevitável, e o mundo ocidental abriu champanhe como se a queda de um homem pudesse, por si só, curar a doença que ele apenas personificou com mais descaramento que seus antecessores. Mas há uma pergunta que ninguém está fazendo , a única pergunta que importa: o Estado húngaro encolheu um centímetro? Os impostos caíram? O aparato regulatório que Orbán herdou, expandiu e instrumentalizou em favor dos seus foi desmontado? Não. Mudou o nome na porta do gabinete. O cofre continua lá, intacto, fumegante, esperando o próximo inquilino.

Aristóteles, que entendia de política antes que a palavra virasse sinônimo de mentira profissionalizada, advertia que o regime não é apenas quem governa, mas para quem governa e com quais meios. Orbán governou com os meios do Estado máximo , controle de mídia, captura judicial, distribuição de favores a oligarcas domésticos, manipulação de contratos públicos , e o chamou de conservadorismo cristão. É o tipo de fraude intelectual que faria Dostoiévski rir e chorar ao mesmo tempo, porque ele já havia descrito esse personagem: o inquisidor que usa o nome de Cristo para justificar o chicote. Chamar de conservadorismo a estatização da vida cívica húngara é como chamar de dieta o hábito de escolher qual bolo comer primeiro.

Rothbard foi absolutamente implacável neste ponto, e vale a pena repetir até enjoar: o Estado não tem ideologia. O Estado tem apetite. Quando Orbán construiu seu sistema de capitalismo de compadres , onde os contratos da União Europeia, note bem, os mesmos recursos de Bruxelas que ele fingia desprezar no discurso soberanista, foram canalizados para empresas de aliados e familiares , ele não estava fazendo política conservadora. Estava fazendo aquilo que Bastiat descreveu com precisão cirúrgica no século XIX: a ficção pela qual todos vivem à custa de todos, até que alguns descobrem que vivem muito mais à custa de muito mais. A trilha do dinheiro húngaro leva invariavelmente a um punhado de sobrenomes que aparecem em todos os contratos públicos relevantes da última década.

E Magyar? Péter Magyar chegou como o outsider, o marido traído pela ministra corrupta, o homem que descobriu por dentro o que muitos suspeitavam por fora. Sua trajetória pessoal tem o drama certo para as câmeras e o simbolismo necessário para mobilizar uma geração exausta de orbánismo. Mas o Partido Tisza não é um partido libertário , é um partido pró-União Europeia, o que em termos rothbardianos significa que a Hungria não está escapando da jaula, está solicitando transferência para uma jaula maior, mais cara e administrada por tecnocratas que falam cinco idiomas e não prestam contas a ninguém que se possa identificar pelo nome. Tocqueville chamaria isso de despotismo suave: ninguém é tiranizado de forma dramática, todos são administrados de forma perpétua.

O que aconteceu na Hungria é um capítulo que Voegelin reconheceria imediatamente como gnóstico em sua estrutura: a crença de que o mal reside num homem específico, e que removendo esse homem inaugura-se a era da virtude. É uma fantasia. O mal político, como São Tomás de Aquino e Burke , por caminhos opostos mas convergentes , compreenderam, reside nas instituições mal construídas, nos incentivos perversos, no poder concentrado sem freio e sem contrapeso real. Orbán não surgiu do vácuo: ele surgiu de um Estado que já estava gordo o suficiente para ser capturado. Magyar herda esse Estado. A questão não é se ele vai capturá-lo, mas quando, e em favor de quem.

A Hungria votou. Isso é bom , é sempre melhor quando os homens trocam os governantes pelas urnas em vez de pela guilhotina, e nenhuma pessoa sensata deveria subestimar o valor desta contenção civilizacional. Mas celebrar a derrota de Orbán sem exigir o desmantelamento das estruturas que ele construiu e que existiam antes dele é o equivalente político de comemorar a troca do ladrão que roubou sua carteira pelo ladrão que promete roubar só metade. A Hungria tem uma janela. Pequena, rara, difícil. E ela se fecha na velocidade exata em que o novo governo descobre o sabor do poder sem limite. Resta saber se Magyar é o remédio ou apenas o próximo sintoma.