O MV Hondius cruzou o Atlântico carregando algo mais valioso do que turistas pagantes em busca de pôr do sol nas Canárias. Trouxe o pretexto perfeito para o teatro biopolítico que se ensaia em portos do mundo inteiro desde tempos imemoriais. Hantavírus a bordo, mortos confirmados, médicos de jaleco branco esperando no cais com pranchetas e protocolos. Tenerife virou cenário, e os passageiros, figurantes involuntários numa peça cujo roteiro foi escrito muito antes de qualquer um deles embarcar.

A indústria dos cruzeiros movimenta cifras que envergonhariam principados inteiros, e opera sob bandeiras de conveniência justamente para escapar das jurisdições que regulam seus próprios territórios. Quando tudo dá certo, o lucro voa para paraísos fiscais nas Bermudas e no Panamá. Quando algo dá errado, como agora, a conta da operação sanitária recai sobre o contribuinte espanhol, que jamais pisou no convés do Hondius e provavelmente nunca poderá pagar uma cabine sequer. É o velho esquema da privatização dos lucros e da socialização das perdas, repetido com a precisão suíça de quem já fez isso mil vezes.

Vale lembrar que a história das quarentenas portuárias não nasceu da medicina, nasceu do controle. Veneza, no século XIV, criou a quarantena giorni não por compaixão pelos doentes, mas para proteger as rotas comerciais da Sereníssima e justificar o monopólio do porto. Cada peste foi, historicamente, oportunidade dourada para expandir poderes que jamais retornam à gaveta depois que a emergência passa. Decretos sanitários têm a mesma natureza dos impostos de guerra: nascem provisórios, morrem permanentes. O cidadão que aplaude o lockdown hoje descobre amanhã que abriu mão de liberdades que seu bisavô morreu para conquistar.

Enquanto os passageiros são desembarcados sob escolta médica, fabricantes de testes diagnósticos, laboratórios farmacêuticos e empresas de logística sanitária já calculam suas margens. Cada surto é uma rodada de financiamento garantida, cada manchete sobre vírus exótico é um pregão favorável nas bolsas. O complexo médico-industrial aprendeu, há décadas, que medo bem dosado vale mais do que qualquer campanha de marketing. E a imprensa, que deveria farejar contratos, prefere transmitir ao vivo a chegada do navio como se fosse o desembarque de Colombo, sem perguntar quem vai faturar com o frete extra do paracetamol até as Canárias.

Os passageiros do Hondius descobriram, da pior maneira, que o luxo prometido no folder vinha com letras miúdas escritas em vírus. Pagaram pela viagem, mas embarcaram sem saber que se tornariam matéria-prima de relatórios epidemiológicos, números em gráficos da Organização Mundial da Saúde, justificativa para o próximo orçamento bilionário de vigilância sanitária global. O comerciante de Tenerife que terá seu bairro isolado, o garçom que perderá turnos, o taxista que verá o porto fechado, esses não aparecem nas estatísticas oficiais. Sangram em silêncio enquanto burocratas conferem presença em comitês de crise.

No fim, sobra a pergunta de sempre, aquela que nenhum jornalista bem comportado ousa fazer no microfone. Se o vírus é tão letal, por que o navio só foi parado em terra firme e não em alto mar? Se a ameaça é real, por que a operadora segue vendendo passagens para a próxima temporada? E se tudo isso é apenas mais um capítulo do longo ensaio sobre como transformar microrganismos em ativos financeiros, então o verdadeiro hospedeiro da doença não está no convés do Hondius. Está sentado numa sala de reunião, contando o lucro do próximo decreto.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.