O Golden State Warriors venceu o LA Clippers no torneio play-in da Conferência Oeste e garantiu mais algumas semanas de relevância nos playoffs da NBA. A imprensa esportiva, fiel ao seu papel de departamento de marketing disfarçado de jornalismo, tratou o resultado como uma façanha épica, um triunfo da resiliência, a prova de que o espírito competitivo ainda vive. Ninguém, evidentemente, mencionou que o formato play-in foi criado em 2020 não por amor ao esporte, mas porque a Disney, dona da ESPN, precisava de mais jogos televisionáveis para justificar contratos publicitários durante uma temporada encurtada pela pandemia. O formato deu tão certo para os balanços que ficou permanente. Não foi o torcedor que pediu; foi o acionista que exigiu.

A NBA acaba de assinar um pacote de direitos de transmissão de 76 bilhões de dólares com ESPN, NBC e Amazon, o maior da história do esporte americano. Setenta e seis bilhões. Para contextualizar, o PIB do Paraguai inteiro é menor que isso. Cada jogo do play-in, cada lance dramático, cada close na cara suada de Stephen Curry existe dentro de uma engrenagem desenhada para converter emoção humana em receita publicitária. O torcedor que grita na arquibancada pensa que é protagonista; na verdade, é o produto sendo vendido para a Anheuser-Busch e a State Farm. O ingresso que ele comprou a 400 dólares já é o menor dos lucros envolvidos.

E falemos dos donos, já que ninguém fala. Joe Lacob, proprietário do Warriors, comprou a franquia por 450 milhões de dólares em 2010. Hoje ela vale mais de 7 bilhões. Steve Ballmer pagou 2 bilhões pelo Clippers em 2014 e construiu o Intuit Dome por mais 2 bilhões, o que a imprensa celebrou como "investimento privado", omitindo convenientemente os incentivos fiscais, as isenções tributárias e a infraestrutura viária que o contribuinte de Inglewood bancou para que o entorno do estádio funcionasse. É sempre assim: o lucro é privado, o custo é socializado. A fórmula não muda desde que o primeiro imperador romano ofereceu gladiadores ao povo enquanto aumentava impostos para financiar a arena. O coliseu mudou de forma, mas o modelo de negócio é idêntico.

O mais revelador nessa história toda não é quem venceu ou quem perdeu na quadra. É quem vence sempre, independentemente do resultado. Os Clippers foram eliminados, e Ballmer continua sendo o 11º homem mais rico do planeta. Os Warriors avançaram, e Lacob vai faturar mais duas ou três partidas de ingressos, concessões e cotas de patrocínio. Os jogadores, esses gladiadores modernos com contratos milionários que mascaram uma carreira média de cinco anos e um corpo destruído aos 35, servem como rostos descartáveis de uma máquina que existia antes deles e existirá depois. A liga tem 30 franquias, nenhuma delas perdeu dinheiro no último ano fiscal. Nenhuma. Em qualquer outro setor da economia, isso se chamaria cartel. No esporte, chamam de "a magia do jogo".

O torcedor médio americano gasta cerca de 1.400 dólares por ano com esporte profissional entre ingressos, streaming, merchandise e apostas, sim, apostas, porque a NBA abraçou as casas de apostas com o entusiasmo de quem encontrou um novo oleoduto de receita. A DraftKings e a FanDuel patrocinam tudo, desde o intervalo até a análise pós-jogo, e a liga embolsa centenas de milhões por ano em contratos de parceria com empresas de gambling. O mesmo establishment que há dez anos chamava apostas esportivas de "ameaça à integridade do jogo" hoje estampa seus logos na quadra. A integridade, descobriram, vale exatamente o que o patrocinador paga por ela.

Golden State avança, Los Angeles volta para casa, e a narrativa já está escrita para o próximo capítulo. A máquina não para, não pode parar, porque cada segundo de tela desligada é receita perdida. O play-in existe para que times medíocres tenham mais uma chance, dizem. Na verdade, existe para que redes de TV tenham mais uma rodada de comerciais de 30 segundos a 500 mil dólares cada. O jogo bonito morreu há muito tempo. O que sobrou é um espetáculo financeiro com bola laranja, onde o placar final importa menos que o balanço trimestral. E o torcedor, coitado, ainda acha que torcer é de graça.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.