Quarenta vírgula quatro contra trinta e seis vírgula nove, com três pontos de margem de erro. Traduzindo do estatístico para o português: ninguém está ganhando coisa alguma, e o eleitor mato-grossense foi convidado a escolher entre dois cavalos do mesmo estábulo, escovados pelo mesmo cavalariço, alimentados no mesmo cocho do orçamento público. Um é senador, cadeira acolchoada em Brasília há tempo suficiente para o cheiro do couro ter virado parte do currículo. O outro é o atual ocupante do Palácio Paiaguás, ou seja, o sujeito que hoje mesmo assina os empenhos, distribui as secretarias e decide qual empreiteiro vai pavimentar qual estrada de acesso a qual fazenda estratégica. E querem que o distinto público acredite que se trata de uma disputa entre projetos.

Repare no truque de mágica. A imprensa oficial trata a pesquisa como se fosse um duelo entre visões de mundo, quando o que se tem, na prática, é uma briga interna por quem terá o dedo mais gordo em cima do carimbo. A pergunta que nenhum instituto faz, porque instituto nenhum vive de fazer, é a única que interessa: quem financia cada campanha, quem paga as inserções de rádio no interior, quem banca os cabos eleitorais que descem da Chapada até o Pantanal com camiseta nova e boné plastificado? Sigam o rastro do dinheiro e o suposto antagonismo se dissolve na mesma poça de asfalto quente onde ambos vão pisar amanhã, cada um com o pé em uma bota, mas as botas fabricadas pelo mesmo sapateiro discreto.

Há uma velha lei que vale desde a Roma dos generais fatigados que compravam legiões com terra prometida: quando dois candidatos empatam tecnicamente, é porque o eleitor percebeu, ainda que confusamente, que a diferença entre eles é decorativa. É a mesma indiferença resignada dos plebeus diante de Sula e Mário, dos florentinos entre uma fação e outra dos Médici, do camponês russo em fevereiro de mil novecentos e dezessete perguntando se o novo czar vai cobrar menos que o antigo. A resposta histórica é sempre a mesma, e ela não muda porque o cerrado é bonito e a soja está em alta: o novo cobra igual, às vezes mais, e sempre com discurso mais moderno.

Enquanto isso, o produtor rural que sustenta a economia do Estado, o comerciante que paga ICMS sobre o próprio suor, o motorista de aplicativo que fura buraco em avenida remendada e o funcionário público de ponta que ainda acredita em serventia, todos esses continuarão pagando a conta, independentemente de qual dos dois nomes acabar sentado na cadeira maior. A campanha custa milhões, a promessa custa outros milhões, a posse custa mais alguns, e a fatura, sempre a mesma, chega parcelada em imposto, taxa, tarifa e inflação silenciosa. É o único imposto que dispensa lei complementar: o da esperança periódica renovada por marqueteiros bem pagos.

O que se chama de segundo turno é, na verdade, o segundo tempo do mesmo jogo, com o placar zerado apenas para efeito de manchete. Nos bastidores, as planilhas já foram redistribuídas, os cargos comissionados já foram loteados em rascunho, os apoios do primeiro turno já cobraram adiantado a comissão do segundo. O eleitor é convocado a legitimar, com sua digital úmida na urna, um acordo que foi costurado em jantar de churrasco premium em condomínio fechado, longe da poeira da BR que ele mesmo terá o privilégio de continuar engolindo. E o pior: sairá do colégio eleitoral com a sensação cívica de ter cumprido um dever, como quem paga boleto de assinatura de um serviço que nunca contratou.

A pergunta honesta, aquela que abre a porta e fecha a porta do raciocínio, é sempre a mesma e nunca aparece na cédula: quem paga por tudo isso, e quem, ao fim de mais quatro anos de governo do vencedor, terá ficado tangivelmente mais rico? Se a resposta for o cofre do cidadão comum e o bolso do de sempre, respectivamente, então o resultado da apuração é irrelevante, salvo para os apostadores profissionais que vivem justamente disso. O resto é folclore democrático, ritual bonito para a fotografia, teatro pago com a bilheteria de quem nem sabia que tinha comprado ingresso.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.