San Antonio fechou em 2 a 1 a série semifinal contra Minnesota, com o gigante francês Wembanyama empilhando cestas como quem empilha contratos publicitários. Nova York abriu 3 a 0 sobre Philadelphia. O placar é o de menos. O que interessa é o ecossistema bilionário que se monta em torno de cada bola que entra no aro, ecossistema esse que consome subsídios públicos com a voracidade de uma frota de porta-aviões em tempo de guerra fria. Cada arena reluzente nas grandes cidades americanas foi erguida, em boa parte, com isenções fiscais municipais, títulos de dívida pública e desapropriações generosas, transferindo riqueza do contribuinte anônimo para o bolso de proprietários que, no privado, se vendem como capitalistas heroicos.
A liga move algo na casa dos onze bilhões de dólares por temporada. Os direitos de transmissão recém renegociados beiram os setenta e seis bilhões para a próxima década, dinheiro que circula entre Disney, Comcast e a gigante do streaming de Seattle, exatamente as mesmas corporações que dominam a narrativa política, a publicidade farmacêutica e a propaganda bélica em horário nobre. Quando o jogo termina, entra o comercial do recrutamento militar, do banco grande demais para falir, do remédio caríssimo. A quadra é o palco; a verdadeira partida é jogada nos intervalos comerciais, e o público torce achando que está apenas se divertindo.
Há um padrão aqui que atravessa séculos. O Coliseu romano não foi construído por amor ao espetáculo, foi construído porque imperador nenhum sobrevive sem distrair a plebe enquanto saqueia províncias na fronteira. Pão e circo é tecnologia política, não metáfora literária. Enquanto a multidão rosna pelo lance final em San Antonio, o Tesouro americano emite mais um trilhão em dívida, o banco central monetiza a conta, e o dólar perde silenciosamente poder de compra na carteira da empregada doméstica que assiste ao jogo no celular pré pago. O drible perfeito do francês de vinte e dois anos é magnífico. O drible perfeito que o Estado aplica no salário do operário é invisível.
Note o detalhe revelador: os jogadores são, em sua imensa maioria, jovens negros e latinos vindos de bairros que o próprio Estado destruiu com guerra às drogas, escolas públicas falidas e zoneamento confiscatório. Eles são vendidos ao público como prova viva do sonho americano, quando na verdade são exceções estatísticas usadas para justificar um sistema que esmagou seus irmãos de origem. A liga lucra com o talento individual e ao mesmo tempo financia campanhas por mais regulação, mais imposto, mais governo, exatamente o pacote que mantém o gueto funcionando como linha de produção de atletas e prisioneiros. Coincidência elegante.
E há o flanco geopolítico que ninguém quer enxergar. A NBA tem joint ventures profundas na China, fechou a boca quando funcionários de Hong Kong foram massacrados em 2019, suspendeu transmissões para apaziguar Pequim e demitiu narrativas inconvenientes. Ao mesmo tempo, posa de bastião progressista dentro dos Estados Unidos, abraçando toda pauta moral que custa zero ao caixa e nenhuma à diplomacia chinesa. É a hipocrisia perfeita do capital globalizado: militante em casa, servil no exterior, sempre lucrativo. O torcedor, esse, paga o ingresso, paga a televisão, paga o imposto que subsidia o estádio, paga o dólar desvalorizado que comprou o tênis fabricado em Xangai. Paga quatro vezes pelo mesmo espetáculo e ainda agradece.
Que Wembanyama continue encestando. Que os Knicks fechem a série. O resultado esportivo é legítimo, é mérito, é beleza. O problema nunca foi a bola. O problema é o que se vende junto com ela, e o silêncio cúmplice de uma plateia hipnotizada enquanto seu país é leiloado em tempo real. Roma também aplaudia, até o dia em que descobriu que não havia mais pão, só circo.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.