Quarenta e um pontos. Foi quanto o gigante francês despejou na cesta dos atuais campeões para roubar o jogo um da série na casa do adversário. O placar de 122 a 115 não conta nem metade da história. Conta apenas o que a câmera mostra. O que a câmera esconde é uma engrenagem comercial que faz a velha companhia das Índias Orientais parecer um clube de filantropia. Cada arremesso convertido alimenta contratos de transmissão avaliados em setenta e seis bilhões de dólares, fatura ingressos cujo preço médio dobrou em uma década e movimenta um mercado de apostas legalizado que, desde a liberação federal nos Estados Unidos em 2018, já ultrapassou trezentos e cinquenta bilhões em volume apostado.
O rapaz que dominou a quadra não é apenas atleta. É um portfólio ambulante. Antes de pisar na liga profissional, contratos de patrocínio na casa dos duzentos milhões já o aguardavam. Tênis, energético, refrigerante, montadora alemã, banco de investimento. O corpo de dois metros e vinte e quatro centímetros tornou-se garantia colateral em uma economia que aprendeu a securitizar gente como antes securitizava hipotecas. Quando ele se machuca, ações caem em três bolsas diferentes. Quando converte uma cesta de três, derivativos são executados em milissegundos por algoritmos que jamais assistiram a uma partida de basquete na vida.
E a cidade que sedia a equipe vitoriosa? San Antonio entregou aos donos do time uma arena nova, paga em parte por aumento de imposto sobre hotelaria e aluguel de carros, em esquema replicado em praticamente todas as franquias do continente. O contribuinte texano, que jamais pisou em uma cadeira do estádio porque o ingresso médio custa mais que sua diária de trabalho, subsidia o lazer dos executivos que compram camarotes corporativos com desconto fiscal. É o mesmo truque que romanos antigos chamavam de pão e circo, com a diferença sutil de que o pão de hoje é pago à parte, com juros, no boleto do IPTU.
A liga, por sua vez, expandiu-se globalmente como o império britânico expandia ferrovias no século dezenove. Academias de formação na África ocidental, escolas afiliadas na Austrália, parcerias compulsórias na China, onde uma frase mal colocada de qualquer dirigente custou meio bilhão de dólares em receita perdida em 2019 e ensinou a todos os envolvidos que liberdade de expressão é luxo que acionista não banca. O jovem francês foi descoberto, lapidado e exportado por esse mesmo circuito, que funciona como linha de montagem de Detroit nos anos cinquenta, só que com adolescentes no lugar de chassis.
O espectador comum, aquele que paga pacote de streaming, camisa oficial de cento e vinte dólares e cerveja a quinze dólares no estádio, é informado de que assiste a um esporte. Assiste, na verdade, a um produto financeiro travestido de competição atlética. Cada lance em câmera lenta foi precificado por um departamento de marketing. Cada celebração foi ensaiada por consultores de imagem. Cada lágrima de derrota gera engajamento mensurável em painéis de Bloomberg. O que parece paixão é planilha, e o que parece talento bruto é capital humano amortizado em dez temporadas.
Resta o consolo magro de ver, por algumas horas, um sujeito de vinte e dois anos fazer o que nenhum outro ser humano no planeta consegue fazer com uma bola. É genuíno, é belo, e por isso mesmo é tão lucrativo. A beleza vende. Sempre vendeu. A diferença é que agora vende em tempo real, com taxas de corretagem embutidas e impostos retidos na fonte. O torcedor aplaude. O acionista contabiliza. E o garoto, daqui a quinze anos, descobrirá quanto do que ganhou foi efetivamente seu.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.