O placar foi 111 a 103, mas o resultado real estava escrito nas planilhas das emissoras meses antes da bola subir. Victor Wembanyama, o prodígio importado de Le Chesnay como se fosse minério estratégico, despachou o Oklahoma City Thunder e devolveu o San Antonio Spurs à decisão depois de mais de uma década de travessia no deserto. Do outro lado, os Knicks, franquia que vale mais de sete bilhões de dólares justamente por jogar no único mercado que importa para os anunciantes globais. A liga sorri, os patrocinadores aplaudem, e em algum lugar do Texas um contribuinte ainda paga a hipoteca do ginásio onde o francês acabou de fazer história.

Convém lembrar que o AT&T Center, palco da façanha, foi erguido em 2002 com cerca de cento e setenta e cinco milhões de dólares vindos majoritariamente do bolso público do condado de Bexar, sob a promessa surrada de revitalização econômica e prestígio cívico. Vinte e poucos anos depois, os estudos sérios sobre arenas subsidiadas continuam mostrando o que qualquer comerciante do bairro já sabia: o retorno fiscal é negativo, o emprego gerado é sazonal e mal pago, e a única coisa que de fato cresce é o patrimônio líquido do proprietário do time. Peter Holt, Julianna Hawn Holt e companhia agradecem o presente. O cidadão de San Antonio, esse, ganhou o direito de torcer pelo prodígio que, fora de quadra, custa mais caro do que parece.

Wembanyama é o produto perfeito desta era. Foi descoberto, lapidado e exportado pelo sistema federado francês de basquete, que por sua vez recebe verbas do Ministério dos Esportes, ou seja, do contribuinte gaulês que jamais verá um centavo dos quatrocentos e cinquenta milhões de dólares do contrato de patrocínio coletivo que a NBA assinou recentemente com a Nike, nem dos setenta e seis bilhões do novo acordo de mídia com Disney, NBC e Amazon que entra em vigor na próxima temporada. O moleque correu, suou e treinou. A franquia colheu. E o Estado francês, generoso com o dinheiro alheio, financiou a formação de um ativo que hoje rende dividendos em dólar para acionistas de Manhattan.

Os Knicks do outro lado da chave são a metáfora viva do compadrio esportivo. Pertencem ao Madison Square Garden Sports Corp., conglomerado da família Dolan que opera sob isenções fiscais municipais avaliadas em mais de quarenta milhões de dólares por ano, um benefício concedido em 1982 e que, milagre dos milagres, nenhum prefeito de Nova York jamais conseguiu revogar apesar de promessas reiteradas. A franquia mais cara da liga é também a mais subsidiada per capita, e ainda assim cobra do torrent comum ingressos que começam em centenas de dólares. Privatização dos lucros, socialização das arenas, é a regra do jogo desde que existe jogo.

A reboque vêm as casas de aposta, agora legalizadas em trinta e oito estados americanos depois que a Suprema Corte derrubou a proibição em 2018, transformando cada lance em produto financeiro. DraftKings e FanDuel pagam à NBA centenas de milhões anuais por dados oficiais em tempo real, enquanto comissões estaduais embolsam impostos sobre o vício alheio e chamam isso de receita inovadora. O espetáculo de quadra virou apenas a fachada visível de uma engrenagem que gira em derivativos, direitos autorais e contratos publicitários. O jogador é o operário industrial do entretenimento, ainda que o salário mínimo da liga ultrapasse um milhão de dólares; o torcedor é a matéria-prima emocional cuja atenção é vendida por centavos a anunciantes que cobram caro de volta no supermercado.

Que San Antonio celebre o seu gigante francês, que Nova York volte a ostentar a vaidade de Madison Square. A final será espetacular, os índices de audiência baterão recordes, os contratos serão renovados em valores cada vez mais obscenos. Enquanto isso, o vendedor de cachorro-quente do lado de fora do ginásio continuará disputando vaga com a praça de alimentação subsidiada lá dentro, o pequeno proprietário do bar da esquina seguirá pagando ISS para sustentar a arena do bilionário, e o telespectador médio descobrirá que sua mensalidade de streaming subiu de novo porque alguém precisava bancar os setenta e seis bilhões do novo contrato. Pão e basquete sempre foi mais barato que república.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.