O ritual se repete com a precisão de um relógio suíço. Surge um foco de Ebola em alguma província remota da República Democrática do Congo, e em questão de dias o burocrata-mor da saúde global aterrissa em Kinshasa com o roteiro decorado: apertos de mão com ministros, fotos com crianças, conferência de imprensa solene e o inevitável apelo à comunidade internacional para abrir os bolsos. Ninguém pergunta por que, depois de décadas de surtos recorrentes e bilhões de dólares despejados, o Congo continua sendo o epicentro perpétuo da doença. A resposta é incômoda demais: epidemia resolvida é orçamento cortado.
Sigam o rastro do dinheiro e a paisagem fica nítida. A vacina contra o Ebola, desenvolvida com farto financiamento público canadense e americano, hoje pertence a um conglomerado farmacêutico que cobra preço de mercado para entregá-la em doses humanitárias compradas pelo próprio contribuinte que pagou pela pesquisa original. É o esquema perfeito: socializam-se os custos do desenvolvimento, privatizam-se os lucros da distribuição, e o pobre congolês entra na conta como justificativa moral para a operação inteira. Cada frasco aplicado num vilarejo de Équateur é, na prática, um cheque emitido em Bruxelas e descontado em Nova Jersey.
O ecossistema da ajuda internacional, esse leviatã de jaleco branco, depende da existência permanente da catástrofe que jura combater. São milhares de funcionários internacionais com salários em dólar, hotéis quatro estrelas em Goma cobrados em diárias generosas, frotas de Toyota Land Cruiser que jamais retornam, consultorias milionárias para escrever relatórios que ninguém lê. A epidemia é o produto; o sofrimento alheio, a matéria-prima. Erradicar de vez o Ebola seria, para essa estrutura, o equivalente a uma fábrica de munições desejando a paz mundial. Ninguém serra o galho onde construiu mansão.
Do lado congolês, a coreografia é igualmente bem ensaiada. Um governo que não consegue garantir água potável, estradas pavimentadas ou hospitais com energia elétrica subitamente descobre vocação para gerenciar pacotes bilionários de emergência sanitária. O dinheiro entra pela porta da frente em forma de doação multilateral e sai pela porta dos fundos em forma de contratos com empresas fantasmas ligadas a primos do ministro. Décadas de história africana pós-colonial mostram o padrão com clareza brutal: a tragédia humanitária é o último recurso fiscal de regimes que já saquearam tudo o que havia para saquear.
Enquanto isso, o camponês de Mbandaka, aquele que efetivamente enterra os mortos e cuida dos doentes com pano molhado e oração, não vê um centavo. Ele vê comboios brancos passando, ouve discursos em francês de Paris, recebe panfletos impressos em Genebra. A vacina pode até chegar à sua aldeia, depois que metade da família já partiu, depois que o vírus já sumiu por conta própria como sempre fez antes da existência da OMS. O custo humano da epidemia é pago em corpos negros; o lucro da resposta, contabilizado em balanços trimestrais de gigantes farmacêuticos cotados em bolsa.
A próxima crise já está sendo agendada nos calendários dos comitês permanentes. Haverá novo apelo, novo aporte, nova foto institucional. E o Congo seguirá pobre, doente e endividado, exatamente como precisa estar para que a engrenagem continue girando. Compaixão internacional é o nome elegante que se dá ao mercado mais cínico do planeta.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.