Duzentos e vinte mortos confirmados, centros de tratamento queimados em zona de guerra, e a Organização Mundial da Saúde, com a cara mais séria do mundo, anuncia que a epidemia está "superando" a capacidade de resposta. Traduzindo do diplomatês para o português, isso significa o seguinte: arrecadamos quinhentos milhões de dólares em promessas globais, gastamos uma parte considerável em conferências, relatórios, viagens executivas e consultorias, e o vírus continua andando mais rápido que o burocrata de Genebra. Quem diria.
Olha, a história das grandes pestes africanas tem um padrão que ninguém da imprensa oficial gosta de reconhecer. Sempre que o vírus aparece, aparece junto um exército de organizações internacionais com sigla de três letras, hotéis cinco estrelas em Kinshasa lotados de "especialistas em resposta humanitária", e relatórios de captação de recursos que prometem números cada vez mais redondos. O dinheiro chega. O remédio, nem sempre. E quando chega, frequentemente chega vencido, ou chega via um intermediário ligado ao primo do ministro, ou simplesmente se evapora entre a alfândega e o hospital de campanha que nunca foi construído.
Quer dizer, meio bilhão de dólares é uma quantia que, bem aplicada, poderia ter vacinado, isolado, tratado e ainda sobrava troco para construir três hospitais permanentes na região leste do Congo. Mas o problema do dinheiro internacional é que ele nunca foi pensado para resolver o problema; ele foi pensado para alimentar a estrutura que se sustenta enquanto o problema existe. Resolver o Ebola definitivamente seria péssimo para os negócios de quem vive de combater o Ebola eternamente. É a velha lógica do bombeiro que precisa de incêndios.
E há a parte que a imprensa adora deixar fora do parágrafo de abertura: os centros de tratamento estão sendo atacados porque a região leste do Congo é zona de guerra crônica, com milícias financiadas por interesses regionais que disputam ouro, coltan e cobalto, os mesmos minerais que vão dentro do celular pelo qual você está lendo este texto. Ninguém quer falar disso, claro. É muito mais confortável discutir "resposta humanitária" do que admitir que as cadeias globais de suprimento de tecnologia verde dependem de um caos sustentado por décadas de intervenção estrangeira mal disfarçada de cooperação.
O Congo, vale lembrar, é um dos países mais ricos do planeta em recursos naturais e um dos mais pobres em qualquer indicador humano que se queira medir. Não é coincidência, é projeto. Sempre que um país tem algo que o mundo desenvolvido quer, aparece uma combinação de governo local corrupto, ONG internacional bem intencionada e empresa multinacional discreta que garante que o povo daquela terra nunca tenha autonomia para decidir o próprio destino. O Ebola é apenas o sintoma mais visível de um corpo social que está sendo drenado há gerações.
A pergunta que ninguém faz na coletiva da OMS é simples: se quinhentos milhões não bastam, quanto basta? Um bilhão? Dois? Dez? A resposta honesta seria que nenhuma quantia basta enquanto o modelo for esse, porque o modelo não é desenhado para terminar a crise, é desenhado para administrá-la indefinidamente. E enquanto o congolês comum enterra os seus, o consultor internacional renova o contrato, o ministro local compra o segundo apartamento em Paris, e a OMS publica mais um comunicado preocupado. Caridade institucional virou indústria, e indústria precisa de matéria-prima. No caso, cadáveres.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.